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A certeza não existe, 2025-52

As hipóteses e teorias científicas são estabelecidas com recurso à indução e portanto a sua verdade nunca está absolutamente garantida. (Ver o seguinte post do blogue “The Logic of Science”: “Science doesn’t prove anything, and that’s a good thing”)

“Nenhuma dose de experimentação poderá alguma vez provar que estou certo; mas uma única experiência pode provar que estou errado.” (Albert Einstein) Assim, para os católicos, a afirmação “Todos os homens são mortais” não é verdadeira.

“O princípio fundamental da ciência, quase a sua definição, é este: o único teste da validade de qualquer ideia é a experimentação.” (Richard P. Feynman)

“Um cientista nunca tem certeza. [...] Precisamos absolutamente de deixar espaço para a dúvida, ou não há progresso nem aprendizagem. Não há aprendizagem sem que se faça uma pergunta. E uma pergunta exige dúvida. As pessoas procuram a certeza. Mas não há certeza. As pessoas ficam apavoradas — como se pode viver sem saber? Não é nada estranho. Na verdade, você apenas pensa que sabe. E a maioria das suas acções baseia-se em conhecimento incompleto, e você realmente não sabe do que se trata, ou qual o propósito do mundo, ou muitas outras coisas. É possível viver sem saber.” (Idem)
Portanto, se na ciência não pode haver certeza, muito menos ela pode existir em qualquer outra área da cultura.

“Não me parece que este universo fantasticamente maravilhoso, esta imensa extensão de tempo e espaço e diferentes tipos de animais, e todos os diferentes planetas, e todos estes átomos com os seus movimentos, e assim por diante, toda esta complexidade possa ser meramente um palco para que Deus observe os seres humanos a lutar entre o bem e o mal — que é a visão defendida pela religião. O palco é demasiado grande para o drama.” (Richard P. Feynman)

“Porquê afundar-se no infortúnio dizendo coisas como: ‘Porque temos tanto azar? O que nos fez Deus? O que fizemos nós para merecer isso?’ Se compreender a realidade e a acolher completamente no seu coração, verá que são irrelevantes e insolúveis. São apenas coisas que ninguém pode saber. A sua situação é apenas um acidente da vida.” (Idem)

“A ciência é uma forma de ensinar como algo chega a ser conhecido, o que não é conhecido, até que ponto as coisas são conhecidas (pois nada é conhecido absolutamente), como lidar com a dúvida e a incerteza, quais são as regras da evidência, como pensar sobre as coisas para que se possam fazer julgamentos, como distinguir a verdade da fraude e da farsa.” (Idem)

“Nos seus esforços para aprender o máximo possível sobre a Natureza, a física moderna descobriu que certas coisas nunca poderão ser ‘conhecidas’ com absoluta certeza. Grande parte do nosso conhecimento permanecerá sempre incerta. O máximo que podemos saber é em termos de probabilidades.” (Idem)

“Na ciência, duvidar é imprescindível; para o progresso científico, é absolutamente necessário ter a incerteza como parte fundamental da nossa natureza. Para avançarmos na compreensão, devemos permanecer modestos e admitir que não sabemos. Nada é certo ou comprovado para além de qualquer dúvida. Investigamos por curiosidade, porque é desconhecido, não porque sabemos a resposta. E à medida que desenvolvemos mais conhecimento científico, não estamos a descobrir a verdade, mas sim que isto ou aquilo é mais ou menos provável.
Ou seja, se investigarmos mais a fundo, descobriremos que as afirmações da ciência não se referem ao que é verdadeiro e ao que não é, mas sim ao que é conhecido com diferentes graus de certeza… Cada um dos conceitos da ciência situa-se numa escala graduada algures entre a falsidade absoluta e a verdade absoluta, mas não em nenhum dos extremos.” (Idem)
Mas há uma coisa de que duvido muito pouco: a Humanidade não vai conseguir livrar-se da estupidez.

“Um filósofo disse um dia: ‘É necessário para a própria existência da ciência que as mesmas condições produzam sempre os mesmos resultados.’ Ora bem, não produzem!” (Richard P. Feynman)

“A imaginação da Natureza supera em muito a nossa.” (Idem)

“A física não é a coisa mais importante. O amor é.” (Idem)
E a física não é a coisa mais importante porque o amor está fora do seu âmbito.
Mas também não existe certeza no amor, porque o verdadeiro amor é incompatível com a natureza do animal humano.

“Uma verdade é um erro à espera de vez.” (Vergílio Ferreira)

“O que é o amor? É a união suprema da loucura e da sabedoria.” (Edgar Morin)

“O homem transporta o mistério da vida, que por sua vez transporta o mistério do mundo.” (Idem)

“Em cada fé há uma dúvida, profunda, mais ou menos reprimida.” (Idem)

“A vida só se torna suportável se nela introduzirmos não a utopia, mas a poesia, isto é, a intensidade, a celebração, a alegria, a comunhão, a felicidade e o amor.” (Idem)

“Sou atormentado pelo problema da sabedoria. Nos tempos antigos, falávamos sobre os sábios. Hoje, sabemos que a loucura e a sabedoria são dois pólos das nossas vidas. Nunca sabemos se fomos sábios.” (Idem)

“A ideia da verdade é a maior fonte de erro que pode ser considerada; o erro fundamental é apropriar-se do monopólio da verdade.” (Idem)

“Nunca há garantia de que a consciência supere a ambiguidade e a incerteza.” (Idem)

“Conhecer e pensar não significa chegar a uma verdade absolutamente certa, mas sim dialogar com a incerteza.” (Idem)

“A conclusão de uma obra complexa não deve ocultar a sua incompletude, mas revelá-la.” (Idem)

“Só podemos ter certeza absoluta das coisas que não compreendemos.” (Eric Hoffer)

“Só tem convicções quem que nada aprofundou.” (Emil Cioran)

A mente não é capaz de atingir a certeza, mas é muito difícil viver sem certezas. Por isso muitos homens têm tendência para inventar falsas certezas.

A ignorância cria incerteza. E nós nunca sabemos tudo o que seria vantajoso saber. Se todos fossem sábios, cada um seguiria o melhor caminho, sem necessidade de escolher um caminho, e os conflitos seriam reduzidos ao mínimo. De acordo com Jiddu Krishnamurti, liberdade é não ter de escolher.
“Por que temos que escolher? Se você é realmente lúcido, se tem uma compreensão exacta das coisas, então não há escolha. Disso resulta uma acção correcta. Apenas quando há dúvida e incerteza é que começamos a escolher. A escolha, então, se vocês me permitem dizê-lo, constitui um empecilho para a liberdade”. (Jiddu Krishnamurti, in “O que é liberdade”)

Aquele que discorda de mim força-me a pôr a hipótese de eu estar errado.

Se a vida humana for um problema mal-posto (vide Wikipédia: Problema bem-posto), todos os pontos de vista estarão errados, porque esse problema não terá solução. E se a vida humana for um problema demasiado difícil para as capacidades mentais dos seres humanos, então, para todos os efeitos práticos, a vida humana será um problema mal-posto.

“Nascemos sem saber porquê, morremos sem saber porquê. A meu ver, o imperativo religioso que hoje se impõe diz respeito à tomada de consciência desse destino comum. Temos um destino comum: nascer e morrer, sofrer e poder ser felizes. Para mim, a religião só pode ser a religião dos homens perdidos. Para mim, a religião não se deve fundar sobre a idéia de salvação, como as religiões tradicionais, mas sobre uma idéia de perdição. Nós estamos perdidos juntos.” (Edgar Morin, in “Nul ne connaît le jour qui naîtra”)

A morte não é uma certeza. Ela é a maior das incertezas. Gosto de pensar que o Universo é um organismo evolutivo e eterno, dotado de consciência e sensibilidade, que são atributos das suas componentes sencientes, nomeadamente os seres humanos. E nunca saberemos por que razão o Universo é como é. E porque cada pessoa é uma parcela do Universo, também não se pode saber por que razão é o que é, e o que dela fica depois da morte.

A frase “A certeza não existe” é contraditória porque afirma uma certeza. Dado que a Razão tem uma capacidade de prova limitada, o título deveria ser “Não é possível garantir a verdade de qualquer afirmação que careça de prova”. Mas uma emoção não carece de prova e portanto é verdadeira para quem a sente, mas sendo subjectiva, não é uma verdade absoluta. Os sentidos também nos permitem fazer afirmações verdadeiras. Se eu vi o João dar um tiro no Manuel posso dizer com certeza “O João matou o Manuel”. No entanto, os polícias que investigarem o homicídio terão de usar o método indutivo e não poderão garantir a verdade do veredicto final. Os historiadores também usam o método indutivo, e portanto os livros de História não dão a verdade absoluta sobre o passado.

“A verdade histórica não existe. A História não é mais do que uma ficção. Quer dizer, uma ficção com mais dados, concretos, reais, mas também com muita imaginação.” (José Saramago)

Temos então de concordar com Nietzsche quando afirmou que não existem verdades absolutas. O homem não poderá nunca compreender exaustivamente o cérebro humano (vide post 2025-35) nem a complexidade, certamente maior, do Universo como um todo (pensemos nos paradoxos da mecânica quântica).

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