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Máquinas e organismos, 2023-16

De acordo com o biólogo Robert Rosen, existem dois tipos de sistemas: as máquinas e os sistemas complexos (ou organismos). Uma máquina é igual à soma das suas partes e portanto o seu funcionamento pode ser compreendido através de uma abordagem reducionista (ver o post 2022-31). Numa máquina construída pelo homem, as partes (ou peças) actuam umas sobre as outras de acordo com as regras definidas pelo projectista.

Por outro lado, um organismo é maior do que a soma das suas partes e por isso o seu estudo exige uma abordagem holística. Os átomos e os seres vivos são sistemas complexos gerados por processos naturais inteiramente diferentes da tecnologia humana.

Uma máquina é construída pelo homem por justaposição de várias peças fabricadas separadamente. Por outro lado, um organismo vivo é um todo indivisível que cresce a partir de um zigoto inicial.

No artigo (disponível na Internet) “Robert Rosen: The well posed question and its answer – Why are organisms different from machines?” (de Donald C. Mikulecky) pode ler-se o seguinte:

“Why not assemble a cell from its parts? The first response is usually that it is too complicated. What Rosen showed is something else. The issue is not one of complication, but one of complexity. Fabrication of complex systems is an entirely different project from the fabrication of a machine.” Os organismos vivos são gerados por um processo evolutivo que, em minha opinião, é orientado pela Consciência Cósmica. Um organismo não é construído por partes, porque o processo evolutivo que o gera segue um plano que está totalmente contido na Consciência Cósmica desde o início do processo.

De acordo com Robert Rosen, a característica definidora dos organismos vivos é serem sistemas antecipativos (anticipatory systems). Para Rosen, um sistema antecipativo é um sistema que contém um modelo preditivo de si mesmo e do meio ambiente, que permite alterar o estado presente de acordo com as previsões relativas a um estado posterior. (Um sistema sem capacidade preditiva diz-se reactivo.) Sobre estes conceitos ver o seguinte artigo (disponível na Internet): “Robert Rosen’s anticipatory systems” (de A. H. Louie). Neste artigo pode ler-se o seguinte:

“A reactive system can only react, in the present, to changes that have already occurred in the causal chain, while an anticipatory system’s present behavior involves aspects of past, present, and future. The presence of a predictive model serves precisely to pull the future into the present; a system with a ‘‘good’’ model thus behaves in many ways as if it can anticipate the future.”

Todo o sistema que possui uma descrição matemática exacta pode ser simulado por um computador suficientemente potente. Por isso, a distinção entre máquinas e organismos só faz sentido se pudermos provar que os organismos não têm descrição matemática exacta.

Existe ainda muita controvérsia sobre a possibilidade de um computador digital simular um organismo vivo. Em minha opinião, esta questão é menos difícil do que parece. Uma vez que as emoções e os sentimentos não podem ser explicados (“gostos não se discutem”), não é certamente possível simular a mente humana com um computador.

A subjectividade dos sentimentos não permite defini-los, quer sejam nossos ou alheios. Por isso penso que não podemos construir máquinas sensíveis.

Num organismo, além das suas partes materiais, existe uma parte imaterial que coordena as relações entre as partes materiais. É isto que se quer dizer ao afirmar que o todo é maior do que a soma das suas partes. Por exemplo, uma nação é formada pelos cidadãos e pelas ideias que os interligam, e uma molécula de água é mais do que a mera junção de hidrogénio e oxigénio.

Em minha opinião, a diferença entre o todo e a soma das partes, que verificamos num organismo, está na Consciência Cósmica, entendida como um campo de informação que tudo interliga e organiza. À medida que aumenta o número e a complexidade das relações entre as partes do organismo, as suas propriedades emergentes tornam-se mais sofisticadas. Além disso, é de esperar que qualquer propriedade emergente (por exemplo, a consciência) resulte da acção simultânea de várias partes interligadas do organismo e nunca da acção isolada de qualquer delas.

A hipótese de que a Consciência Cósmica está fora do espaço-tempo (ver o post 2023-15) explicará o facto de o comportamento dos seres vivos ser dirigido por objectivos. Devido à acção da Consciência Cósmica, o presente não depende só do passado mas também do futuro.

“An anticipatory system’s present behavior depends upon ‘‘future states’’ or ‘‘future inputs’’ generated by an internal predictive model. This apparent violation of causality is, however, simply an illusion.” (A. H. Louie, Ibidem)

“The predictive model in an anticipatory system must not be equivocated to any kind of ‘certainty’ (even probabilistically) about the future. […] The future still has not yet happened: the organism has a model of the future, but not definitive knowledge of future itself.” (Ibidem)

“The future does not pre-exist in the present: the Universe is open, unfinished, and unpredictable.” (George Kampis) Dizer que o Universo é aberto é afirmar que o futuro não está predeterminado e é imprevisível. Por isso, “o nosso conhecimento é feito de expectativas e a nossa vida é baseada nelas”. (Karl Popper, in “O Futuro é Aberto”, entrevista disponível no blogue ilovealfama.com/tag/karl-popper) Nesta entrevista, Karl Popper afirma que “a fonte das nossas expectativas é em parte o nosso conhecimento inato, por assim dizer, o conhecimento que remonta ao nosso ajustamento darwiniano ao mundo. Uma criança, por exemplo, ajusta-se ao ambiente circundante através do seu conhecimento inato”. Este “conhecimento inato”, designado acima por modelo preditivo, é formado por expectativas inconscientes de base genética.

“The end is where we start from.” (T. S. Eliot)

Quando falamos da finalidade de qualquer coisa (por exemplo um órgão de um organismo), estamos implicitamente a admitir que a existência dessa coisa foi determinada por alguma entidade tendo em vista essa finalidade. (Alguns chamam Deus a essa entidade, outros chamam-lhe Natureza e outros ainda, como eu, chamam-lhe Consciência Cósmica.) Uma vez que os organismos não são construídos por partes, a necessidade de, na explicação do funcionamento de um organismo, identificar os seus órgãos e as respectivas finalidades é uma expressão da nossa incapacidade de compreender holisticamente o organismo. Para compreender um organismo, não podemos deixar de o decompor em partes, ou seja, somos forçados a ser reducionistas, mas desta forma não conseguimos uma compreensão completa.

 

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