Aprecio muito o pensamento de Emil Cioran porque caracteriza muito bem as enfermidades da mente humana e os consequentes horrores do mundo que essa mente tem construído. Mas ele parece não acreditar no amor, ao passo que eu só acredito no amor e na compaixão. Se da realidade humana tirarmos o amor e a compaixão, o que fica é lixo ou quase. O que mais me faz sofrer é o sentimento de impotência perante o sofrimento dos outros.
“O amor – um encontro de duas salivas… Todos os sentimentos extraem o seu absoluto da angústia das glândulas. Só há nobreza na negação da existência, num sorriso que paira sobre paisagens dizimadas.” (Emil Cioran, in “Breviário de Decomposição”, Edições 70, p. 16)
“Apesar de tudo, continuamos amando; e esse “apesar de tudo” cobre um infinito.” (Emil Cioran, in Silogismos da Amargura)
O drama do homem é não conseguir eliminar os seus tiques animalescos. Por isso os conflitos reaparecem sempre, como entre os animais na selva, e as obras boas nunca são concluídas. Assim só a violência, o sofrimento e a morte permanecem.
O homem é um animal ao qual a cultura procura pôr um açaime, mas este cai com muita frequência.
A vida é uma viagem sem destino conhecido. Se a vida humana visa algum objectivo admirável determinado por Deus, por que razão a sua evolução é tão hesitante e lenta?
A vida humana está sempre presa por cordéis. De vez em quando, um qualquer abanão fá-la vacilar.
“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” (Fernando Pessoa) Mas estamos a assistir a uma acelerada dissolução das ideias mais nobres, que vai reduzindo o tamanho das almas e criando a impressão de que nada vale a pena. Os seres humanos perdem constantemente valor e a Terra é cada vez mais um lugar desolador. Após inúmeras experiências frustradas, fica-se com a impressão de que não vale a pena tentar mais nada. Estaremos a assistir à morte da civilização ou à gestação de um renascimento? O problema é que a crise climática e ambiental não vai dar tempo para um recomeço.
“Objecção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido.” (Emil Cioran)
“Se Noé tivesse possuído o dom de prever o futuro, teria certamente naufragado.” (Emil Cioran, in Silogismos da Amargura)
Cioran pensa que a natureza do mundo não permite transformá-lo em algo que possa satisfazer os seres humanos. A evolução do mundo neste início de século dá-lhe razão.
“Contrariamente ao que muitos possam pensar, não sou um optimista. Para continuar a viver, a acreditar, preciso de me agarrar a pequenas ilhas, a pequenos ninhos de resistência. Preciso disso para continuar a viver. A escuridão do mundo é omnipresente, qualquer que seja a direcção para onde nos viremos. Sabemos de que atrocidades, de que barbárie, os humanos são capazes.” (Nicolas Philibert, in Ípsilon 10-11-2023, p. 5)
Concluí que não consigo compreender os meus semelhantes. Por isso vou evitar criticá-los.
“Tenho todos os defeitos dos outros e, no entanto, tudo o que eles fazem parece-me inconcebível.” (Emil Cioran)
“Sonho com uma língua cujas palavras, como punhos, partissem queixos.” (Emil Cioran)
“Às vezes eu gostaria de ser um canibal — menos pelo prazer de comer alguém do que pelo prazer de vomitá-lo.” (Emil Cioran)
“Quem é capaz de escrever
aforismos não deveria desperdiçar o seu tempo com ensaios.” (Karl Kraus)
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