Foi recentemente publicado o livro “Determinado, Uma ciência da vida sem livre-arbítrio”, de Robert M. Sapolsky, no qual o autor procura provar que o livre-arbítrio é uma hipótese falsa. Nos dois arigos seguintes (ambos disponíveis em https://johnhorgan.org), o jornalista de ciência John Horgan contraria os argumentos de Sapolsky:
“Free will and the Sapolsky paradox”
“Free Will and the Could-You-Have-Chosen-Otherwise Gambit”
Para John Horgan, o livre-arbítrio é a capacidade de decidir conscientemente com base em deliberações conscientes. Assim, se não pudermos exprimir por palavras as deliberações que justificam uma decisão, não é possível falar de livre-arbítrio. Mas só existe deliberação no caso de decisões racionais. Ora, estas decisões são impostas pela lógica, e portanto não há razão para dizer que são livres. Além disso, a lógica é muitas vezes usada falaciosamente para esconder as razões afectivas que estão na base das nossas decisões. A maioria das decisões dependem da sensibilidade e portanto não podem ser plenamente justificadas. Se em algumas ocasiões eu não agi de forma diferente foi porque a minha sensibilidade recusou as alternativas, sem que eu pudesse justificar porquê.
O vício de fumar não pode ser justificado racionalmente, e assim o fumador não consegue justificar o seu vício. Um fumador é escravo de uma sensibilidade que não consegue explicar. Quando fuma, o fumador comporta-se como um autómato que está consciente do seu vício. O mesmo poderá dizer-se a respeito de outros vícios e de várias perturbações mentais.
Quando alguém me garante que o homem possui livre-arbítrio, eu esperarei que a maioria dos seres humanos actue livre e responsavelmente. Mas o estado do mundo não parece compatível com a existência de um grande número de pessoas livres e responsáveis.
A mente humana é demasiado complexa e ambígua para podermos determinar com rigor a génese dos nossos comportamentos. Conhecemos os nossos desejos mas não os processos mentais que conduzem a eles.
Quando falamos da mente recorremos sempre a metáforas que descrevem muito mal o que nela acontece. A mente é muito mais complexa do que essas metáforas sugerem.
Mas, para mim, o argumento decisivo contra a hipótese do livre-arbítrio é o seguinte: os comportamentos de todos os sistemas materiais, incluindo os seres humanos, são determinados pelas leis naturais. Mas a consciência cria em nós a ilusão de estar fora do mundo e de o controlar. Esta é a ilusão do livre-arbítrio.
Nada do que acontece no mundo é determinado pelas vontades dos seres humanos (vide post 2024-10). Nem os crimes e as respectivas punições, nem os medos e as crenças, são escolhas dos homens, porque resultam do estado de cada cérebro. Um homem pode acreditar numa coisa e outro não. Na verdade, somos forçados a assistir ao espectáculo deprimente que a vida humana nos dá. Os conceitos de livre-arbítrio, culpa e responsabilidade mostram bem como os homens comunicam entre si através de ideias para as quais não possuem definições precisas. Creio que o Espírito Universal usa os nossos corpos para sentir o mundo. Todo o génio e todo o terror devem ser atribuídos a esse Espírito transcendente. Não é possível dar à vida humana um sentido mais elevado. Mas é difícil manter a fé naquele Espírito perante tanto absurdo que vemos à nossa volta. Por isso as religiões tradicionais acreditam num Deus pessoal que se interessa pelo homem. No entanto, não me parece que a crença num Deus pessoal torne mais fácil compreender aquele absurdo. Volto a lembrar o pensamento de Arthur Eddington: “O Universo é não só mais estranho do que nós imaginamos, mas também mais estranho do que podemos imaginar”.
Dizer que o livre-arbítrio não existe é simplesmente afirmar que o comportamento humano presente é o resultado inevitável do que aconteceu no passado, por efeito de leis naturais que não conhecemos completamente, ao qual se sobrepõem alterações imprevisíveis devidas ao acaso.
No entanto, admito que leis naturais ainda desconhecidas venham a melhorar o nosso conhecimento sobre o cérebro e a justificar a existência de algo a que possamos chamar livre-arbítrio. John Horgan também o admite quando, no primeiro dos artigos referidos, escreve o seguinte:
“I’ve overstated the case for free will a bit. Science, I’m guessing, will never prove or disprove free will once and for all. Scientists have no idea how physical processes engender consciousness, which is a prerequisite for free will.”
Assim, o livre-arbítrio poderá permanecer para sempre um tema de fé, tal como Deus. Teremos sempre argumentos para acreditar e argumentos para negar.
O artigo “The Free Will Debate Really Heated Up This Year”, de Denyse O'Leary (disponível no site Mind Matters), dá uma boa síntese deste problema. Neste artigo pode ler-se a seguinte citação:
“It is not hard to follow or understand or even agree with Sapolsky’s arguments. But they run so very counter to our lived experience that it’s extremely difficult to feel them, to grok them, to actually believe them. Sapolsky knows this, since he experiences it, too, and he has a solution: pretend. Live as if we had free will, even though we don’t. (Except, of course, when condemning a wrong-doer; see previous paragraphs.) It is hardly the only delusion we need in order to get through this life.”
“Sinto que sou livre mas sei que o não sou.” (Emil Cioran, in “Do inconveniente de ter nascido”)
A ideia de livre-arbítrio parece-me inútil. De facto, todo o ser vivo tem de obedecer à sua natureza e portanto não pode ser livre. No entanto esta natureza pode mudar com a experiência.
“Tudo o que eu posso fazer é ser eu próprio. O que quer que isso seja.” (Bob Dylan)
“Freedom is the slogan of the strong, who feel self confident, self sufficient to do it alone.” (Zygmunt Bauman)
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