Segundo Ernest Becker, a consciência da morte afecta significativamente o comportamento dos seres humanos porque retira significado à vida humana (vide post 2025-4). Para mitigar a ansiedade causada pela inevitabilidade da morte, os homens constroem ideologias de imortalidade, numa tentativa de dar objectivo e estabilidade às suas vidas. (A mais recente destas ideologias é talvez o “Design Inteligente”) Estas ideologias são a origem de rituais e comportamentos que constituem a essência da cultura.
No vídeo do Youtube intitulado “The Surprising Ways Death Shapes Our Lives” é afirmado que a consciência da morte tem consequências paradoxais: pode tornar-nos mais generosos mas que também pode originar comportamentos inconsequentes. Isto porque o terror causado pela morte pode levar o homem a sentir que não há razão nenhuma para tomar a sério a vida humana e a concluir que só a diversão tem interesse. Para evitar o tédio e esquecer o terror da morte, o homem recorre à competição, que é uma forma de diversão. E a guerra é uma forma extrema de competição.
Trump e Putin vivem na ilusão da imortalidade porque estão convencidos de que vão salvar os seus países. As suas decisões vão trazer mais mal do que bem.
“The concept of progress acts as a protective mechanism to shield us from the terrors of the future.” (Frank Herbert)
“Pessoas dotadas de razão não agem razoavelmente quando cegas por mundividências ilusórias” que as conduzem à violência, como as guerras religiosas mostram (vide “Facing Paradox”, by Larissa Fitzpatrick, “Ernest Becker Foundation”).
“Quando acreditamos tão fortemente nas nossas ilusões privadas formadas pela necessidade de negar a nossa mortalidade, é provável que sejamos intolerantes, se não violentos, em relação a grupos com diferentes visões da realidade. Usamos o nosso intelecto para apoiar a nossa causa, argumentando que o outro grupo é errado ou mesmo mau. Aqueles com ideologias que não coincidem com as nossas ameaçam expor as próprias falácias que nos sustentam. Paradoxalmente, as nossas ideologias de imortalidade culturais que achamos que promovem o bem no mundo, muitas vezes criam miséria para os outros.” (Larissa Fitzpatrick, Ibidem)
Além disso, a consciência da morte pode reduzir o respeito pela dignidade humana, porque se pode sentir que a dignidade é incompatível com a mortalidade. Immanuel Kant pensava que os animais não humanos não têm dignidade. Assim, podemos sentir que, por ser mortal, o ser humano está ao nível dos outros animais e que, não tendo dignidade, pode ser tratado como um cão vadio.
A vida humana é essencialmente simples porque visa apenas a sobrevivência da espécie e a satisfação da sensibilidade dos homens. Se a natureza humana não fosse tão defeituosa, a cooperação racional entre os homens permitiria satisfazer razoavelmente bem aqueles objectivos. Mas, não conseguindo separar a Razão da sensibilidade, o homem é facilmente dominado pelo egoísmo e pela ganância. E sem a distracção que os conflitos dão, o homem seria esmagado pelo terror da morte e morreria de tédio.
Por outro lado, a consciência da morte leva os homens a complicar a sua vida numa tentativa de lhe dar maior significado. O homem faz da vida um jogo absurdo e ridículo. Ele é apenas um animal mas não gosta de admitir isso.
“Embora o homem não tenha nunca a possibilidade de experimentar o seu fim, ele é o único dos animais no qual toda a vida é orientada pela imaginação da sua morte.” (Pascal Quignard, in “Os Desarçonados”, 2024, p. 51)
“We are gods with anuses.” (Ernest Becker, in “The Denial of Death”)
Mas valerá a pena construir um paraíso terreno se, quando estiver quase concluído, a espécie estará prestes a desaparecer? Seria um paraíso efémero, quando é próprio de um paraíso ser eterno. E sem esta luta desesperada pela sobrevivência, que nos ocupa quase todo o tempo, que faríamos num paraíso?
“Ao tentar evitar o mal, o homem é responsável por trazer mais mal ao mundo do que os organismos alguma vez poderiam fazer apenas exercitando os seus tractos digestivos. Foi o engenho do homem, e não a sua natureza animal, que deu aos seus semelhantes um destino terrestre tão amargo.” (Ernest Becker, in “Escape From Evil”)
“Para os animais, a vida é tudo o que existe; para o homem, a vida é um ponto de interrogação. Um ponto de interrogação irreversível, pois o homem nunca encontrou, nem nunca encontrará, respostas. A vida não só não tem sentido; nunca poderá ter um.” (Emil Cioran, in “Nos Cumes do Desespero”)
É bom que mundo seja absurdo e abjecto para que os seres humanos aceitem a morte mais facilmente. E o agravamento dos conflitos entre os povos torna cada vez mais desejável a extinção da espécie humana.
A Humanidade não conseguirá resistir à crise climática nem à constatação de que, no séc. XXI, as atrocidades têm ocorrido com a mesma frequência que em séculos anteriores.
Há dias perguntei a uma pessoa amiga: “Se o mundo acabasse amanhã, isso seria uma grande perda?” Ela respondeu: “Eu ganharia, porque iria encontrar Jesus”. (Não se pode estar mais convencido da imortalidade.) Mas, em minha opinião, o que se perderia está muito longe de compensar as desgraças que se evitariam. Vivemos num mundo do qual a dignidade quase desapareceu.
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