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Verdade e mentira, 2025-7

 

“A verdade dos factos está sempre em risco de ser manipulada, mas sem a verdade é impossível unir ou dar coesão ao mundo.” (Isabel Lucas, no suplemento P2 do Público de 19-01-2025, p. 13)

Fala-se de pós-verdade nas “circunstâncias em que os factos objectivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal.” (segundo a definição de pós-verdade do Dicionário Oxford, citada no mesmo artigo, p. 13)

“Trump fez 2.140 afirmações falsas ou enganosas durante o seu primeiro ano de mandato – uma média de 5,9 por dia.” (Ibidem, p. 13)

Isabel Lucas refere o seguinte artigo: “The death of truth: how we gave up on facts and ended up with Trump” (Michiko Kakutani, in “The Guardian”, Sat 14 Jul 2018). Neste artigo, M. Kakutani faz o seguinte desafio: “Como podemos impedir que os factos alternativos destruam a democracia?”

“Toda a gente tem direito à sua própria opinião, mas não aos seus póprios factos.” (Michiko Kakutani, no artigo anterior) Mas duas pessoas podem atribuir significados diferentes a um dado facto.

“A cultura da ‘pós-verdade’ elevou a subjectividade ao extremo, permitindo que as pessoas escolham as suas próprias ‘verdades’ com base em sentimentos, opiniões ou lealdades ideológicas.” (Isabel Lucas, Ibidem, p. 14) Isto explica a adesão de muitos às afirmações de Trump, mesmo quando foi provado que são falsas.

“Pós-verdade é pré-fascismo e abandonar factos é abandonar a liberdade.” (Timothy Snyder)

Os termos pós-verdade, “decadência da verdade” e “factos alternativos” são sinónimos. Quando Trump afirma que a eleição de 2020 lhe foi roubada, está a criar um facto alternativo.

O jornal “The Washington Post” identificou mais de 30 mil afirmações falsas ou enganosas de Trump ao longo dos quatro anos do seu primeiro mandato.

Para Trump, a verdade é aquilo que ele julga favorecê-lo. Para ele os factos não importam porque se considera um criador de factos (como os escritores do Génesis).

“Não deixa de ser significativo (e também paradoxal) que num tempo em que tantas bocas cospem palavras virtuosas como tolerância, relações empáticas, inclusão, empoderamento, etc., se assista, em simultâneo, a tanto radicalismo extremado.” (Ana Cristina Leonardo, in Ípsilon de 21-02-2025, p. 31) Parafraseando António Guterres, Cristina Leonardo termina o artigo com a frase “Trump não nasceu do vácuo.”

“Nunca se mentiu tanto como nos dias de hoje. Nem alguma vez se mentiu de uma maneira tão descarada, sistemática e constante.” (Alexandre Koyré)

“Sempre mentimos, aos outros e a nós próprios. […] A mentira banalizou-se ao ponto de ser moralmente indiferente.” (André Barata, in Ípsilon de 21-02-2025, p. 31)

O problema é que não é possível pôr os homens de acordo sobre a verdade e a mentira, porque estas têm frequentemente uma origem afectiva. Nem os juizes conseguem libertar-se das emoções.

Creio que uma democracia só pode funcionar bem se for exercida maioritariamente por pessoas cultas. Na mão de pessoas ignorantes ou estúpidas, qualquer progresso pode tornar-se perigoso, seja ele a democracia ou a inteligência artificial. Trump foi eleito pelas pessoas mais incultas dos EUA. Veja-se o que está acontecendo. Convém notar que os EUA são o país onde a crença no criacionismo está mais implantada.

No primeiro mês do actual mandato, Trump baniu 10.000 títulos de livros das bibliotecas das escolas dirigidas pelo Pentágono, o que alguns críticos consideram um acto de censura inconstitucional.

Numa entrevista publicada no Ípsilon de 10-05-2024, a propósito do seu filme “Um casal”, Frederick Wiseman fala da grande frequência de figuras paranóicas entre os políticos americanos e acrescenta: “Trump é a pior de todas estas figuras, mas representa uma tendência de paranóia, estupidez, anti-intelectualismo, que sempre existiu na política americana. H. L. Mencken escrevia nos anos 20 que nunca se deve subestimar a estupidez do público americano”. E Wiseman concluiu dizendo que “o mundo está feio e perigoso”.

“As pessoas adoram odiar.” (Donald Trump) Por isso ele cria ódio pelos imigrantes, heterossexuais, movimentos “woke”, centros de saber, associações cívicas, etc. O programa político de qualquer populista está assente no ódio. Trump não é obviamente uma pessoa livre, ele é uma máquina programada para o ataque, incapaz de constatar o absurdo do que diz e de ouvir as razões dos outros.

“I believe that Trump is a mirror of the American soul, a surface symptom of our deeper societal disease. He may not be crazy, but we certainly were for electing him. We mustn’t waste this Trumpian dark age. If we don’t learn from it, we will keep making the same mistakes.” (Allen Frances, M.D., Sept. 6, 2017) Mas a lição não foi aprendida, porque só pessoas minimamente cultas compreendem algumas lições.

Quando olho para Trump não vejo um homem mau. Verdadeiramente vejo um ser maligno. […] Trump é um aspirante a tipo duro, sem moral ou ética. Sem noção de certo ou errado. Não se importa com ninguém além de si próprio — não com as pessoas que ele deveria liderar e proteger, não com as pessoas com quem ele faz negócios, não com as pessoas que o seguem, cegamente e lealmente, nem mesmo com as pessoas que se consideram seus ‘amigos’. Ele despreza-os todos.” (Robert de Niro)

“Trump está-se marimbando para a UE, para os russos e para os ucranianos. Sendo um narcisista patológico, ele só cuida dos seus interesses.” (José Pacheco Pereira, in “O Princípio da Incerteza”, CNN Portugal em 09-03-2025)

Os objectivos mais importantes deTrump são ganhar dinheiro e ser elogiado. Auto-elogia-se frequentemente dizendo algo como: “Vêem, eu fiz coisas que outros não conseguiram fazer”. No seu primeiro discurso no Congresso dos EUA, Trump afirmou que o seu governo fez "mais em 43 dias do que a maioria das administrações consegue em quatro ou oito anos”.

Quem discorda dele é tratado sempre como um inimigo. Em 07-03-2025, no programa “Janela Global” da RTP 3, o Gen. Arnaut Moreira disse que Trump é um indivíduo amoral que não tem valores nem princípios.Trump admira Putin porque governa de uma maneira que ele deseja aplicar nos EUA.

“O conservador britânico Michael Dobbs, […] apesar do seu contacto íntimo com o diabolismo do poder, seria o primeiro a confessar a sua incompreensão do fenómeno Trump.” (Ana Cristina Leonardo, in Ípsilon, 07-03-2025, p. 30) Este fenómeno é difícil de compreender porque é gerado por uma mente insana. Para Ana C. Leonardo, a cena da humilhação de Zelensky na Sala Oval, em 28-02-2025, foi uma peixeirada como nunca se vira antes na televisão.

Recentemente, Trump disse que Zelensky é um ditador. Mas em 26-02-2025, junto de Keir Starmer, foi questionado por um jornalista: “Ainda pensa que Zelensky é um ditador?” e Trump respondeu: “Eu disse isso? Não acredito que tenha dito isso”. Trump é um mentiroso compulsivo.

Trump passou anos a diabolizar a imprensa. Popularizou a frase “fake news” e rotulou os jornalistas de “inimigos do povo”. Uma decisão recente de Trump determina os jornalistas que têm acesso à Casa Branca.

“O caminho das fake news é o de levar as pessoas a serem incapazes de distinguir a verdade da mentira.” (Ana Cristina Leonardo, in Ípsilon de 15-11-2024, p. 30)

Por se sentir um salvador da pátria, Trump está convencido de que está acima da lei. Ele colocou recentemente numa rede social a frase “Aquele que salva o seu país não viola nenhuma lei”, que costuma ser atribuída a Napoleão. Robert Reich afirmou recentemente que “Trump é o presidente mais ilegal da história dos Estados Unidos”.

Com Trump, os EUA vão passar por uma época negra.

 

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