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Futuro sombrio, 2025-49

A história da Humanidade é em grande medida um relato de conflitos e horrores. Se as acções humanas fossem escolhas racionais, o homem já há muito teria tido consciência do absurdo que a História descreve. Mas os homens são apenas actores numa peça escrita por uma mão invisível, a que Schopenhauer chama Vontade e Bernardo Kastrup chama Consciência Universal (vide post 2025-47). Os homens estão constantemente a praticar actos irracionais, dominados por uma sensibilidade defeituosa.

A Consciência Universal é a Realidade Total. A ciência só permite o conhecimento da matéria, que é a parte objectivável dessa Realidade. Segundo Bernardo Kastrup, a matéria é a representação dos seres inanimados nas consciências individuais. Estas consciências estão fora do âmbito da ciência, o que torna a realidade humana inexplicável. Daí a necessidade dos mitos para dar sentido à vida humana.

Nenhum poeta sabe por que é poeta, e nenhum sociopata sabe por que é sociopata. Trump não é Trump porque quer, mas porque cresceu assim. Ele age por instinto, tal como os imbecis que o elegeram. Ele vê a sociedade como uma guerra de todos contra todos. Trump mostra claramente que o animal humano é o pior dos primatas.

A ciência cria nos homens a crença de que podem alcançar a Verdade. Mas esta crença é uma ilusão.

Segundo Ortega y Gasset, “podemos reduzir os componentes de qualquer vida humana a três grandes factores: vocação, circunstância e acaso. Escrever a biografia de um homem é acertar e colocar em equação estes três valores”. (Ver na Internet: “Fenomenologia e vocação em Ortega y Gasset”, de José Maurício de Carvalho.) Qualquer desses factores é determinado pela Consciência Universal.
Aquele que foge dos outros para ser livre, condena-se à liberdade da inexistência. Os outros é que dão as circunstâncias de que fala Ortega y Gasset. Mas a influência dos outros pode trazer sorte ou azar.

Sem os conselhos que recebi do Dr. Dâmaso [José da Silva] Gomes, meu professor de Físico-química no terceiro ciclo do Liceu Camões, eu teria provavelmente seguido o conselho do meu pai para ingressar na Academia Militar, contrariando totalmente a minha vocação. Este exemplo clarifica o significado do termo acaso na anterior citação de Ortega y Gasset.
O Dr. Dâmaso Gomes era um professor muito singular. Tratava os alunos como homens e costumava dar conselhos aos alunos que ele considerava mais promissores. Começava normalmente as aulas contando uma história com valor formativo, por exemplo sobre uma cena que tinha presenciado na rua ou num autocarro, ou sobre uma notícia de jornal. A seguir ditava o sumário da próxima aula e o próximo trabalho de casa. Depois perguntava se alguém tinha dúvidas sobre os problemas do trabalho de casa e os alunos eram chamados ao quadro para expor as suas dúvidas. Normalmente não dava aulas de exposição, porque achava que não valia a pena repetir as palavras que os alunos podiam ler nos livros da disciplina. Mas quando apareciam muitas dúvidas sobre algum tema, reservava parte de uma aula para fazer uma exposição sobre o assunto. Costumava fazer chamadas, normalmente dirigidas aos alunos que nunca tinham dúvidas. Este método de ensino tornava-o um professor pouco popular. Eu lamento não lhe ter comunicado pessoalmente o meu apreço pela influência que teve na minha carreira profissional.

Para exprimir a ideia de que a mente humana não comanda a realidade, costuma dizer-se que a realidade é mais rica do que a ficção. A ficção é uma construção da mente, mas a realidade, por ser infinitamente complexa, supera largamente a imaginação humana e é absolutamente imprevisível.

“A realidade ultrapassa sempre a ficção.” (Pedro Almodóvar)

O homem consegue fazer muito pouco do que considera urgente. Só fazemos facilmente o trivial e não urgente. Por isso, a maior parte dos actos dos homens são rapidamente esquecidos.

O número de teses académicas sobre política e economia continua a crescer, mas os governantes são cada vez mais ignorantes e, de acordo com os relatórios da OXFAM, as desigualdades sociais são cada vez maiores. A inteligência humana não consegue mostrar que algo realmente importante e admirável pode ser extraído da Vida. Tendo em conta o passado, podemos concluir que, com grande probabilidade, a vida humana será sempre um conflito permanente do qual ninguém pode sair vitorioso.

Nas sociedades actuais faltam filósofos e historiadores dispostos a educar o povo, isto é, dispostos a denunciar as convicções erradas que estão sempre a reaparecer. Se o povo não for devidamente educado, a democracia irá definhar. Os dirigentes partidários não bastam, porque a maior parte deles não tem uma visão da realidade humana suficientemente profunda. Esses historiadores e filósofos devem despertar os cidadãos para a solidariedade, de modo a reforçar a coesão social e a democracia. E devem também esclarecer os cidadãos, sobretudo os mais jovens, sobre o significado dos extremismos. É necessário mostrar-lhes que a realidade acaba sempre por derrotar as ideias fantasiosas.

Um povo sem formação política influencia negativamente os dirigentes partidários porque estes, para não perderem as próximas eleições, tendem a satisfazer os desejos egoístas dos cidadãos. Por outro lado, os governos cuidam pouco da formação humanista e o seu objectivo principal é dar a cada cidadão uma formação profissional que lhe permita ganhar dinheiro e criar empresas.

“O pensamento político está reduzido à economia, como se tudo pudesse ser calculado.” (Edgar Morin)
“Quanto mais a política se torna técnica, mais diminui a competência democrática.” (Idem)

Segundo Norberto Bobbio, a democracia tem um fim: a educação dos cidadãos para a liberdade. Ela ensina os cidadãos a serem livres. É essa preocupação com o desenvolvimento da cidadania, no sentido de educá-la para a liberdade, que, segundo ele, distingue o regime democrático de qualquer outra forma de governo. Nenhum regime ditatorial educa o homem para a liberdade. (Ver na Internet o artigo “Bobbio na história das ideias democráticas”, de Assis Brandão.)

“O objectivo da democracia é […] a educação, o desenvolvimento intelectual e a nobreza de espírito, as armas mais importantes que os intelectuais públicos possuem contra a degeneração da democracia em democracia de massas, na qual os demagogos, a estupidez, a propaganda, os absurdos, a vulgaridade e os instintos humanos mais baixos aumentam o seu domínio até inevitavelmente darem à luz o filho bastardo da democracia: o fascismo.” (Rob Riemen, in “O Eterno Retorno do Fascismo”)

“Rob Riemen lembra-nos que o fascismo não chega com alarido. Chega como uma brincadeira. Uma personalidade da televisão. Um slogan populista. Uma mentira reconfortante contada em voz alta e com frequência. Infiltra-se nas nossas instituições, na nossa linguagem, no nosso silêncio.” (in “The Weed in the Garden:  On Rob Riemen and the Return of Fascism”, WJJH blog)

“Rob Riemen alerta que o fascismo nunca desaparece por completo — regressa disfarçado de novas formas: em slogans populistas, no desprezo pela verdade, na decadência da virtude cívica. A democracia, lembra-nos, não se sustenta sozinha. Ela precisa de ser defendida constantemente, ou definhará na complacência. O seu livro é menos uma lição de história do que um espelho — e o que reflecte sobre a nossa época é profundamente perturbador.” (Idem)

“Só quando redescobrirmos o nosso amor pela vida e decidirmos dedicar-nos ao que realmente dá vida — a verdade, a bondade, a beleza, a amizade, a justiça, a compaixão e a sabedoria —, só nessa altura, e nunca antes, ficaremos imunizados contra o bacilo mortal a que chamamos fascismo.” (Rob Riemen, palavras com que terminou o livro “O Eterno Retorno do Fascismo”) Mas muito poucos homens têm a sensibilidade necessária para apreciar estas palavras.

“Não se pode falar de democracia onde falta liberdade de expressão.” (Norberto Bobbio) Por isso a democracia deve promover as condições que permitem exercer essa liberdade. Outro pilar fundamental da democracia é a confiança na justiça, sem a qual a sociedade será um caos. Esta confiança é actualmente muito fraca.

“O fascista fala o tempo todo em corrupção. Fez isso na Itália em 1922, na Alemanha em 1933, no Brasil em 1964. Ele acusa, insulta, agride, como se fosse puro e honesto. Mas o fascista é apenas um criminoso comum, um sociopata que faz carreira na política. No poder, essa direita não hesita em torturar, estuprar e roubar a sua carteira, a sua liberdade e os seus direitos. Mais do que a corrupção, o fascista pratica a maldade”. (Norberto Bobbio)

“Ser de Esquerda é estar do lado dos mais fracos.” (Norberto Bobbio)
“Ser de esquerda é não suportar o sofrimento de outro ser humano.” (José Mário Branco)
“Eu sou de esquerda porque creio que toda a gente  é, no essencial, exactamente igual a mim. Ou seja, tenho a Humanidade em muito má conta.” (Ricardo Araújo Pereira, citado no blogue “Jardim das Delícias”)
Um político de esquerda “parte da convicção de que a maior parte das desigualdades que o indigna, e que gostaria de fazer desaparecer, são sociais e, enquanto tal, elimináveis”; um de direita “parte da convicção oposta de que as desigualdades são naturais e, enquanto tal, inelimináveis” (Norberto Bobbio, citado por Bárbara Reis in Público de 15-11-2025). Em resumo, “uns acham que somos mais iguais do que desiguais; outros acham que somos mais desiguais do que iguais”.

Não podemos dizer que todos os políticos de direita acreditam que os pobres são culpados da sua pobreza, mas todos os tratam como se acreditassem nisso.

Nas discussões sobre esquerda e direita misturam-se amiúde as ideias de igualdade, desigualdade e mérito. Os políticos de direita prezam muito o mérito dos cidadãos porque pensam que o mérito é a principal causa do sucesso. Mas normalmente não têm em conta que a divisão dos resultados da actividade humana não é feita proporcionalmente aos méritos de todas as pessoas que contribuem para esses resultados. Além disso, as fortunas escandalosas acumuladas por alguns industriais monopolistas resultam sobretudo de imporem preços muito superiores aos valores justos dos produtos que vendem, prejudicando um grande número de cidadãos. Lucros exagerados deveriam ser fortemente taxados pelo Estado porque prejudicam muita gente. Se a economia fosse devidamente regulada, os conceitos de esquerda e direita deixariam de ter significado, porque o Estado teria recursos suficientes para apoiar os mais fracos.

“A Natureza cria o mérito, a fortuna põe-no em acção.” (François de La Rochefoucauld)

“Ninguém considera a sua ventura superior ao seu mérito, mas todos se queixam das injustiças dos homens e da fortuna.” (Marquês de Maricá)

O mantra dos direitos humanos continua a ser usado pela maioria dos analistas políticos, mas ao mesmo tempo estes direitos são cada vez mais espezinhados em todo o mundo. Esperar que a dignidade humana possa melhorar drasticamente o mundo é uma esperança vã. A dignidade humana é uma qualidade rara, como o excelente documentário “Orwell: 2+2=5” (de 2025) mostra claramente. Pelas mesmas razões, não podemos esperar que a democracia venha a instalar-se em todo o planeta. De resto, os conceitos de democracia e moral cristã são incompatíveis com as imperfeições humanas e estas não podem ser erradicadas. (O homem tem vislumbres da Verdade mas não consegue concretizá-los.) Se a moral cristã fosse compatível com estas imperfeições seríamos todos monges.

“É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.” (José Saramago) Isto é, as pessoas que estão centradas em si mesmas não conseguem autocriticar-se. Um narcisista maligno como Trump não tem esta capacidade. Por ser também um bully e um fascista, ele está subvertendo a ordem internacional e pondo em causa o que resta de democracia nos EUA.

“O fascismo não está morto. Dorme debaixo dos nossos pés, alimentado pelo medo, pelo ressentimento e pela fome de falsas certezas.” (Rob Riemen, in “O Eterno Regresso do Fascismo”)

“O fascismo só existe na ausência da crítica; alimenta-se de uma espécie de proto-positivismo  definitivo, no qual a realidade está dada de uma vez para sempre, e qualquer possibilidade de questionamento do dado por estabelecido é interditada. Por decorrência, ocorre a interdição da linguagem. O fascista típico não argumenta, ele rosna, emite onomatopeias, cacareja lugares-comuns, mas não processa dados cognitivos. Tudo está para sempre “dito”, no sentido levinasiano  do termo. E a essas características — e também como decorrência, de certo modo, delas — expressa-se a sua face mais visível: a violência em todas as suas formas, justificada “por si mesma”, no sentido de esmagar o Outro ou anulá-lo completamente.” (Ricardo Timm de Souza, filósofo brasileiro, numa entrevista disponível na Internet, sob o título “O fascista não argumenta, rosna”)

“O fascismo tem como ponto nodal, e condição da sua existência, a ausência da linguagem no tempo, ou seja, do discurso; a sua “linguagem” não passa de uma espécie de tradução imediata de atávico ódio ao Outro. E, por isso, em última análise, não faz sentido falarmos de “discurso de ódio”. Discurso pressupõe linguagem articulada no tempo que encontra outras linguagens, e linguagem articulada no tempo pressupõe pensamento e capacidade de lidar com o real, o que, como vimos, é o pavor de todo fascismo.” (Idem) Aqui o Outro é todo aquele que não aceita o pensamento do chefe.

“Nenhum fascista tem dúvidas, só certezas.” Além disso, o fascista “tem sempre uma e apenas uma bandeira apresentada como de interesse geral: a corrupção”; e “a exclusão de temáticas humanísticas dos currículos escolares” é também uma característica fundamental do fascismo. (Idem)
Veja-se também o artigo “Onze sinais do fascismo, segundo Umberto Eco”, de Cândido Grzybowski (disponível na Internet).

“A conjunção de governar e sonhar gera tirania.” (Michael Joseph Oakeshott)
O fascista é um fanático sonhador que sonha com uma sociedade de homens perfeitos e não consegue ver as suas próprias imperfeições.

Quem confunde os seus sonhos com a Natureza é sempre derrotado por esta. “Só se pode vencer a Natureza obedecendo-lhe” (Francis Bacon)

“É mais fácil remover os tiranos e destruir os campos de concentração do que matar as ideias que lhes deram origem e força.” (Harry Truman)

“Se quer uma imagem do futuro, imagine uma bota a pisar um rosto humano — para sempre.” (George Orwell, no livro “1984”) A crise actual da democracia é um sinal de que esta profecia vai acabar por cumprir-se.

Quando a Terra for consumida na fornalha solar, nada de material restará da Humanidade. Esta terá então desaparecido completamente, a menos que a história humana fique registada na Consciência Universal, mas isto não pode ser provado.

Se a Vida um dia acabar definitivamente, poderá perguntar-se “Porque começou?”
Mas na Terra ela terá certamente um fim. Como não é possível provar que a Vida continuará noutro lugar, não podemos provar que a Vida tem um sentido.

“A nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida.” (José Saramago)

“Through our eyes, the Universe is perceiving itself. Through our ears, the Universe is listening to its harmonies. We are the witnesses through which the Universe becomes conscious of its glory, of its magnificence.” (Alan Watts)
Alan Watts é um observador pouco imparcial, porque parece não ver os horrores que todos os dias são praticados pela Humanidade.

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