No vídeo do Youtube “Neurosurgeon’s Proof of an Immortal Soul”, o neurocirurgião Michael Egnor expõe as suas ideias sobre a mente humana. Ele é um dualista e por isso afirma que algumas capacidades da mente, nomeadamente a homeostase, o movimento, a percepção, a memória e a emoção, podem ser explicadas pela matéria do cérebro, mas que o pensamento abstracto e lógico, o livre-arbítrio e a moralidade exigem a intervenção da alma, que é a componente espiritual da mente. Segundo o Dr. Egnor, a sua experiência de neurocirurgião é que lhe pernitiu chegar a estas conclusões.
Na parte final do vídeo, são referidas com algum detalhe as experiências de quase morte (EQM), em particular o caso de Pam Reynolds (vide Wikipedia: “Pam Reynolds case”).
As ideias do Dr. Egnor são claramente expostas numa entrevista conduzida por John Zmirak e publicada no jornal online “Science and Culture Today” em três partes:
Conversation with Dr. Egnor: Are We Meat Machines, and Why Does It Matter?
Conversation with Dr. Egnor: Abstract Thought Comes from the Mind, Not the Brain
Conversation with Dr. Egnor: Near-Death Experiences and Saving the Culture
Nesta terceira parte, o Dr. Egnor afirma que o caso de Pam Reynolds é “o exemplo mais famoso e notável de uma EQM”. E acrescenta: “Nem todas as EQMs são tão dramáticas ou bem documentadas quanto a de Pam Reynolds, mas existem centenas de EQMs verificadas na literatura médica. Quando discuto EQMs com materialistas, ofereço o que chamo Desafio de Pam Reynolds”. Para o Dr. Egnor, as EQM são a prova de que a alma sobrevive à morte.
No mesmo jornal online, o Dr. Michael Egnor publicou um artigo intitulado “The Fundamental Difference Between Humans and Nonhuman Animals”, no qual ele afirma o seguinte:
“Um ser humano é material e imaterial — um ser composto. Temos corpos materiais, e as nossas percepções, imaginações e apetites são poderes materiais, instanciados em nossos cérebros. Mas o nosso intelecto — a nossa capacidade de pensar abstractamente — é um poder totalmente imaterial, e a nossa vontade, que age de acordo com o nosso intelecto, é um poder imaterial. O nosso intelecto e a nossa vontade dependem da matéria para a sua função comum, no sentido de que dependem da percepção, da imaginação e da memória, mas não são eles mesmos feitos de matéria. É na nossa capacidade de pensar abstractamente que nós diferimos dos macacos. É uma diferença radical — uma diferença qualitativa imensurável, não uma diferença quantitativa. […] Somos mais diferentes dos macacos do que os macacos são dos vírus. A nossa diferença é um abismo metafísico. Isto é óbvio e manifesto na nossa natureza biológica. Somos animais racionais, e a nossa racionalidade é toda a diferença. Sistemas de taxonomia que enfatizam semelhanças físicas e genéticas e ignoram o facto de que os seres humanos são em parte seres imateriais que são capazes de pensamento abstracto e de contemplação da lei moral e da eternidade, são lamentavelmente inadequados para descrever o homem.”
Não foi certamente a experiência de neurocirurgião que permitiu ao Dr. Egnor concluir que os animais não humanos não têm alma. O Dr. Egnor é católico e as suas opiniões exprimem a visão tradicional da Igreja.
Em minha opinião, o que distingue os seres humanos dos outros primatas é sobretudo a linguagem e não a existência (duvidosa) da alma (vide post 2025-46). A linguagem e depois a escrita permitiram aos humanos pensar o seu pensamento, o que fez aparecer o pensamento racional.
“Escrevo exclusivamente para descobrir o que estou a pensar, o que estou a ver, o que percebo e o que isso significa. O que quero e o que temo.” (Joan Didion)
O homem é o animal que não gosta de ser animal, mas o seu comportamento torna-o o mais detestável dos primatas.
Comparemos agora o pensamento de Michael Egnor com as ideias que o filósofo Bernardo Kastrup expõe no seguinte vídeo:
Why Materialism is Complete Nonsense - Bernardo Kastrup
O essencial deste vídeo pode ser resumido do seguinte modo:
As coisas são feitas de estados mentais, e a matéria que lhes atribuímos é uma aparência extrinseca e uma imagem de estados mentais. No nível mais básico, tudo é mental. Os estados mentais que constituem o mundo exterior têm para cada um de nós uma aparência a que chamamos matéria. Mas a matéria não é a realidade última. A matéria é a aparência de uma realidade mais profunda que reside por detrás dela — a Consciência Universal.
Não é incorrecto dizer que um microfone é feito de alumínio. No entanto o alumínio não é o nível mais fundamental da coisa a que chamamos microfone. O alumínio é apenas uma aparência.
As quantidades são descrições: comprimentos, pesos, etc. A ciência relaciona quantidades e pretende dar-nos uma descrição objectiva do mundo. As qualidades são a coisa que queremos descrever, a coisa que aparece no ecrã da percepção, a coisa que percepcionamos antes de começar a medir. As qualidades são estados experienciais subjectivos. A realidade é eminentemente qualitativa. Tudo o que nos aparece no ecrã da percepção é qualitativo: cores, texturas, sons, melodias, aromas, sabores, etc. Estas qualidades estão na Consciência Universal e são lidas (não geradas) pelo cérebro.
Estando a noção de qualidade ausente da ciência, esta não pode explicar as experiências de qualidades que a nossa mente nos oferece (vide 2025-34).
Resumindo e concluindo: a matéria é um conceito abstracto da física que Kastrup provou não designar algo real. Para ele, portanto, a hipótese do dualismo não se põe (vide post 2024-70). Além disso ele afirma que a mente toda é de natureza espiritual, ao contrário do que pensa Egnor. E é admissível que a mente seja imortal porque existe numa Consciência eterna. Assim, a morte não significa desaparecimento mas apenas mudança de forma, como o Dr. Kastrup explica em “The World Is Not What You See” (entrevista conduzida por Ibrahim Al-Kaltham, disponível na Internet). Esta entrevista mostra bem quão longe estamos de saber quem somos.
Será que a Consciência Universal é regulada por leis, ou é totalmente livre?
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