No argumento ontológico para provar a existência de Deus, Santo Anselmo define Deus como “o Ser que é mais perfeito do que qualquer outro ser”. Ele pensava que esta definição prova a existência de Deus mas estava enganado, porque a existência não acrescenta nada à perfeição de uma coisa. Se o homem perfeito passasse a existir, ele não ficava mais perfeito do que era antes de existir.
“Mas existe um ser cuja nomeação implica a sua existência, e esse ser é a linguagem. O facto de eu falar e de alguém ouvir implica a existência de nada mais do que a linguagem. A linguagem é aquilo que necessariamente se pressupõe a si mesma.” (Giorgio Agamben, in “Potentialities: Collected Essays in Philosophy”, p. 41)
Isto é, a linguagem é a única entidade cuja definição prova a sua existência.
Uma palavra aponta para o sentido de alguma coisa. Portanto, a linguagem é a prova de que o Espírito Universal existe, porque esta entidade é a sede de todas as ideias e formas. Para quem o Espírito Universal é Deus, a existência da linguagem prova a existência de Deus.
As reflexões anteriores clarificam a conhecida frase do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo (a Palavra de Deus), e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1:1) — vide Wikipédia: Logos.
Sobre o significado de “revelação”na obra de Agamben, a IA deu-me a seguinte resposta:
“A revelação é a compreensão de que “Deus” não é um ser separado e transcendente, mas antes a própria essência do nosso ser linguístico — o “nome de Deus” revela-se como o facto de sermos seres que comunicam”.
Assim, para Giorgio Agamben, Deus revela-se na comunicação dos homens entre si. Concordo plenamente. Esta é aliás, para mim, a única maneira de tornar plausível a ideia de um Deus pessoal do cristianismo, que é obviamente uma criação da mente humana. O rosto de Deus é para mim o rosto implorante daquele que precisa da minha ajuda (vide post 2023-26).
A definição de Deus proposta por Santo Anselmo é baseada na ideia de perfeição, que é uma criação da mente humana. Para tornar Deus mais independente da mente humana, podemos defini-lo como “a origem de tudo o que existe”. Com esta definição, a existência de Deus deixa de carecer de prova.
Mas todas as definições de seres invisíveis são devidas à imaginação. Por exemplo, o que significa a palavra “origem” na definição anterior? O Universo pode ter resultado de uma flutuação quântica aleatória, como propõe o físico Lawrence Krauss (vide post 2025-40 e Wikipedia: A Universe from Nothing).
Segundo Bernardo Kastrup, todos os seres vivos são segmentos dissociados da Consciência Universal, na qual todos os acontecimentos são pensamentos (vide 2025-36). Assim podemos considerar a Consciência Universal como um grande ser vivo que inclui todos os outros seres vivos. Segundo Kastrup, a Consciência Universal é a Causa Primeira, ou causa incausada. Só a Consciência Universal é verdadeiramente livre. Nenhuma consciência dissociada poderia ter escolhido de maneira diferente da que escolheu, e o que aconteceu num dado lugar e instante não poderia ter acontecido diferentemente. Cada consciência dissociada limita-se a assistir ao espectáculo inevitável, imprevisível e sem plano que a Consciência Universal lhe oferece. No blog “A Vida Intelectual” de Edward Wolff, no post intitulado “Introdução ao Idealismo Analítico”, pode ler-se: “O facto de nós homens sermos dotados de metacognição, ou seja, o facto de nós sermos capazes de pensar sobre o pensamento, de sermos capazes de autoconsciê...
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