Os filtros mentais são convicções e sentimentos que influenciam a nossa interpretação dos acontecimentos e podem originar uma visão desfocada da realidade. Estes filtros, que incluem crenças, valores, conceitos, costumes e experiências de vida, são influenciados por análises lógicas deficientes e sobretudo pela sensibilidade de cada pessoa. Deste modo, os filtros mentais variam muito de pessoa para pessoa, pelo que não podem existir duas pessoas com a mesma visão do mundo. A mundivisão de qualquer pessoa é em grande medida uma ficção.
Numa entrevista publicada no suplemento Ípsilon de jornal Público de 16-06-2023, Stanley Fish afirmou o seguinte:
“A transparência não é possível de atingir. Transparência significa ver as coisas claramente, sem distorções de filtros, e isso é impossível seja em que situação for. O que vemos será uma função dos quadros de referência que preenchem a nossa consciência, e todos serão angulares. Não existe nenhum que seja puro e directo. A transparência não é uma conquista possível. É apenas um argumento retórico. É isso que ela é. As pessoas falam de transparência, mas, na realidade, o que ocorre é que um conjunto de filtros é substituído por outro e as pessoas que estão a fazer a substituição dizem: ‘Aha, agora temos transparência...’”
A seguir foi perguntado “Como liga essa ideia com a noção de pós-verdade?”. Stanley Fish respondeu:
“A pós-verdade é o nome de uma condição que esteve sempre connosco e se chama condição humana. Se pudéssemos observar directamente a verdade, se não houvesse mediação entre nós e a verdade, poderíamos falar desse estado de não-mediação como sendo a verdade. Nunca houve um momento de contacto directo com a verdade. A pós-verdade tem sido a condição humana desde o início dos tempos.”
“O que é a verdade?” (Pôncio Pilatos) Para Jesus Cristo só existia uma verdade: a doutrina do amor e da compaixão.
“O amor e a compaixão são necessidades, não luxos. Sem eles a Humanidade não pode sobreviver.” (Dalai Lama)
A verdade indiscutível só existe no sofrimento. E só o amor e a compaixão podem mitigar o sofrimento.
Além dos filtros acima referidos existe ainda o que podemos chamar “filtro da ignorância”. O homem não tem consciência de muitos fenómenos que ocorrem dentro do seu corpo e fora dele, pelo que não pode ter um conhecimento rigoroso da realidade.
De acordo com Roger Scruton, os seres humanos vêem-se a si próprios como originadores dos seus actos (ver o livro referido no post 2023-26, p. 78). No entanto, o filtro da ignorância não nos permite estar seguros de que esse ponto de vista não é ilusório. A linguagem deu-nos a capacidade de construir narrativas sobre os nossos comportamentos, mas estas narrativas podem ser, em larga medida, ficções.
Na mesma p. 78 do livro referido pode ler-se:
“Referimo-nos às acções como acontecimentos; mas identificamos as suas causas não como acontecimentos mas como agentes. Não foi o movimento do braço do João que fez cair a Maria, mas o João, que a empurrou. O João é a causa de todas as coisas que imediatamente provêm da sua vontade.” Assim, para Scruton, a vontade do João é uma causa incausada. Isto parece-lhe ser assim devido ao filtro da ignorância. O João teve consciência do movimento do seu braço e do efeito deste movimento sobre a Maria, mas não teve consciência da sucessão de acontecimentos que ocorreu no seu sistema nervoso e conduziu ao empurrão que ele deu à Maria.
Temos uma visão muito incompleta do mundo e por isso uma interpretação largamente equivocada dos acontecimentos. É pouco provável que termos como liberdade, escolha, responsabilidade, vontade e intenção possam descrever adequadamente a realidade. De facto, para definir rigorosamente estes termos seria necessário conhecer tudo o que se passa no sistema nervoso da pessoa.
A vida não é só matéria (ver o post 2023-18). Na verdade ela é uma forma de acção da Consciência Cósmica sobre a matéria, o que é verdadeiro para todos os seres vivos, incluindo os seres humanos. Uma vez que a Consciência Cósmica é incognoscível, a vida não pode ser plenamente compreendida pelo homem.
“Tenho discutido o lugar da liberdade no mundo da causalidade e o lugar do sujeito no mundo dos objectos. A linguagem parece silenciar-se no limiar dessas noções problemáticas: elas situam-se no limite e só podem ser apreendidas por mais um passo que não podemos dar, o passo além da extremidade do mundo. Sabemos que os dois problemas — liberdade e causalidade, sujeito e objecto — têm uma estrutura comum, e que devem ter uma solução. Mas talvez esteja além do poder da mente humana encontrar essa solução.” (Roger Scruton, Ibidem, p. 87) Os limites da linguagem determinam o poder da mente.
Uma pessoa é essencialmente a sua sensibilidade e a sua linguagem. A linguagem não é suficiente para exprimir o que a pessoa sente e também não é suficiente para descrever exactamente o que acontece no mundo. A linguagem humana deve ter evoluído a partir de gritos e gestos e inicialmente servia apenas para facilitar a colaboração dos homens na luta pela sobrevivência. Usar a linguagem com o objectivo de descrever exactamente a realidade parece-me abusivo. “Não vá o sapateiro além das chinelas.”
“Every explanation is after all an hypothesis.” (Ludwig Wittgenstein)
Roger Scruton parece sugerir que as pessoas têm alma mas os animais não (Ibidem, p. 107). Para mim, qualquer ser tem alma, porque todos os seres estão sujeitos às leis ditadas pela Consciência Cósmica e a alma é simplesmente a maneira como a Consciência Cósmica se manifesta no ser. Mas é claro que a alma depende da estrutura material do ser. Os seres vivos possuem uma alma de um tipo especial, devido à qual eles não são meras máquinas. É esta alma que lhes dá a capacidade de resolver problemas. Os seres humanos têm uma alma que não é apenas sensível (como a dos restantes animais) mas também racional (isto é, capaz de pensamento abstracto).
O facto de os animais terem sensibilidades muito diferentes não significa que uns tenham alma e outros não. Ver nas relações entre Adão e Eva uma “luxúria conspurcada” (Scruton, Ibidem, p. 123) é um pensamento que eu não entendo. Conspurcadas eram as mentes dos que escreveram o Génesis muitos milhares de anos depois de Adão e Eva (que certamente viviam em cavernas).
O aparecimento da linguagem permite ao homem falar da sua sensibilidade, o que os outros animais não podem fazer. Somos assim levados a pensar que a nossa sensibilidade é muito mais complexa do que a de outros animais, o que, obviamente, não podemos provar. A linguagem foi-se tornando mais complexa e o mesmo aconteceu à psicologia. A certa altura fomos levados a criar a noção de alma para frisar que não somos animais como os outros.
O homem actual é, além do seu corpo, uma cultura construída ao longo de milhares de anos, com o auxílio da linguagem. Não creio que seja possível determinar um momento em que a alma começou a existir (no sentido que Scruton dá ao termo “alma”).
Quando Scruton fala do homem ele está normalmente a pensar no homem actual e sobretudo no homem com uma sólida formação moral. Ora, este tipo de homem é raro, como o estado actual da Humanidade mostra claramente.
As culturas têm maneiras diferentes de considerar a relação entre marido e mulher. Assim, a alma não se manifesta da mesma maneira em todos os homens. A alma manifesta-se pela cultura, mas os povos não têm todos a mesma cultura.
Será que Scruton conseguiria reconhecer a alma no homem das cavernas como ele a reconhece no homem actual? E reconhecê-la-ia nos talibãs? Tenho encontrado pessoas tão incultas e boçais que ficaria muito surpreendido se Scruton conseguisse descobrir nelas uma alma.
Se os animais não humanos não têm alma (qualquer que seja o significado desta palavra), então o aparecimento do homem introduziu uma descontinuidade na evolução da vida que, para mim, é inexplicável. Assim, só vejo duas soluções: o abandono do conceito de alma ou a atribuição de uma alma a todos os seres.
Os seres comunicam entre si através das almas.
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