“Quando começo a escrever, nunca sei nada do que me vai chegar. É deixar-me ir até onde a história me levar.” (Jon Fosse, in entrevista publicada no Ípsilon, 22-03-2024, p. 5)
“Considerei-me ateu durante muitos anos. Mas a minha escrita tirou-me do ateísmo. Não se consegue explicar o que acontece ao escrever numa visão apenas materialista, é impossível. Como a música de Bach, não se consegue explicar de onde vem, é impossível. Foi como se um espírito se tivesse aberto para mim, a que eu chamo desconhecido, e eu tornei-me próximo disso. Quando as pessoas me perguntavam se acreditava em Deus, comecei a responder que sim. Que sou crente.” (Jon Fosse, na mesma entrevista, p. 6)
“Acho que tenho o conhecimento, digamos assim, para poder dizer que para as coisas mais importantes da vida as palavras são muito poucas. O que é que podemos dizer sobre Deus? Nada. Eu, pelo menos, não consigo. O que é que podemos dizer sobre o amor? Quase nada. Não temos palavras para isso. O que podemos dizer acerca da morte, para além do óbvio? Nada. Mas em literatura é possível dizer um pouco mais.
Mesmo que não se use a palavra Deus, pode-se sentir o toque do que podemos chamar Deus. Pode-se descrever uma relação amorosa de maneira verdadeira. A literatura serve para dizer o que não se consegue dizer de outra maneira. Como eu disse no discurso da entrega do Nobel, o que não se consegue dizer deve ser escrito. Um bom escritor consegue escrever o que não conseguimos dizer. O que dizemos, aquilo que dizemos de maneira normal, é só como se escrevêssemos a sinopse de uma música que não diz muito sobre a música, é preciso ouvi-la. A boa literatura faz isso, faz ouvir.” (idem, p. 7)
Para Jon Fosse, Deus é a origem da arte. Mas estou em crer que Jon Fosse chama Deus à Consciência Cósmica (que contém todas as possibilidades, tanto as sublimes como as horríveis).
“The most important thing in life
cannot be said, only written, to twist a famous saying by Jacques Derrida. […]
And the act of writing is to me to listen: when I write I never prepare, I
don’t plan anything, I proceed by listening.
So if I should use a metaphor for the action of writing, it has to be that of
listening. Thus, it almost goes without
saying, that writing is reminiscent of music.
[…] Something else, perhaps a bit strange, is when I write, at a certain point I always get a feeling that the text has already been written, is out there somewhere, not inside me, and that I just need to write it down before the text disappears.” (Jon Fosse, in the Nobel Prize lecture, “A Silent Language”, 2023)
Como escrevi no post 2024-10, as causas do comportamento duma pessoa estão fora dela. Assim, no seu trabalho, um escritor ouve uma voz que vem de fora e dá a mão que escreve.
“Mas uma coisa é certa: sem ter vivido aquilo que vivi não teria escrito aquilo que escrevi.” (Manuel Alegre, in entrevista publicada no Público de 14-04-2024) As nossas vivências preparam-nos para ouvir a voz que vem de fora.
Tudo o que existe em mim, material ou imaterial, esteve já totalmente fora de mim.
“O poema chama por mim, é ele que se quer escrever. Há uma coisa que vem parar à minha cabeça, que eu não sei donde vem.” (Maria do Rosário Pedreira, no programa “Fala com ela”, Antena 1, 31 dez. 2022)
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