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Um homem lúcido, 2024-27

Ken Loach é um cineasta britânico cuja obra evidencia uma cultura política socialista. “Boa parte de sua obra está centrada na descrição das condições de vida da classe operária.” (Wikipédia: Ken Loach)

Apresento a seguir alguns extractos da entrevista feita por Vasco Câmara a Ken Loach e publicada no Ípsilon de 17 -05-2024.

[A Humanidade continua com os mesmos problemas] “porque o sistema económico é o mesmo. Vivemos numa economia de mercado cada vez mais dominada por corporações. E em competição aguerrida umas com as outras. Inevitavelmente, a competição encaminha-as para uma implacável caça ao lucro, posições de mercado, utilização dos recursos naturais que não cuida das consequências a longo prazo, políticas externas agressivas… e a uma produção de bens e serviços dependente apenas do lucro.

[…Pode parecer mais fácil mudar o homem do que a sociedade.] Mas não, o homem é que é o produto da sociedade. É a sociedade que determina quem somos. Saber isso é o que determina se somos capazes de lutar ou não. É como o cirurgião: se não compreende a doença, não pode operar o paciente. No último filme [O Pub The Old Oak, 2023] tentei mostrar que há base para a esperança e a esperança é a solidariedade. A grande verdade que não tem sido dita é que a classe operária tem muito poder – mas está adormecida. Esse poder não tem sido utilizado. O grande truque da classe dirigente tem sido dizer: “Vocês são vítimas. Precisam ajuda. Vamos utilizar uma parte dos nossos lucros para vos dar alguma coisa, porque vocês são pobres.” A verdade é que a classe dirigente não é nada sem os que trabalham, porque é com eles que faz dinheiro. O lucro da classe dirigente resulta do facto de ter conseguido distorcer a verdade.

[…] Houve dois males na história do movimento político da esquerda: o estalinismo e a social-democracia. Os hábitos do estalinismo mantêm-se de uma forma ou de outra. Não exactamente com a extensão dos actos praticados por Estaline; que eu saiba já não existem gulags. Mas o controlo do partido mantém-se de uma forma ou de outra. Já o perigo da social-democracia é o facto de ela ter sido o inimigo da mudança, da revolução, ao longo do século passado. O Partido Trabalhista britânico, por exemplo, é hoje um partido neoliberal. A tese da social-democracia é querer fazer o capitalismo resultar no interesse da classe operária. Claro que é um disparate, porque a competição entre corporações obriga a que se faça pressão sobre os salários. Se uma empresa pagar bons salários e contribuições para a Segurança Social, terá menos lucros e os investidores passam a outra empresa. É tão simples quanto isso. Mas esse é o grande elefante na sala de estar.”

“Those in power always try to distort reality, to suit their needs and keep things safe.” (Ken Loach)

 

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