Avançar para o conteúdo principal

Insanidade fatal, 2024-37

Putin poderá acabar por roubar parte da Ucrânia, mas a Rússia será para sempre olhada pelos ucranianos como um estado-pária. E não só pelos ucranianos mas também por todos os que acreditam na dignidade humana. Assim, o que Putin conseguir roubar não o impedirá de perder a guerra. (Aliás, nenhuma guerra pode ser ganha, porque os mortos são uma perda que nenhum ganho material pode compensar.) Putin entrou por um beco sem saída e irá partir os cornos contra a parede, porque não pode reconhecer o erro de ter invadido a Ucrânia. Ele desejava conservar a Ucrânia dentro da Federação Russa mas tem actuado de modo a tornar esse desejo irrealizável.

Putin é um daqueles seres sem dignidade para quem as ideias e o desejo de poder valem mais do que as pessoas. Se ele conseguir ganhos na guerra da Ucrânia, ficará provado que a “democracia” à maneira russa é mais eficaz do que as democracias ocidentais.

E Netanyahu pertence à mesma classe de seres indignos. Em 15-08-2024, na TVI, Miguel Sousa Tavares afirmou que, “neste momento, Netanyahu é o maior carniceiro à face da Terra”. Ele é responsável pelo assassínio de mais de 40.000 palestinianos.

A Humanidade não é capaz de travar estes seres sinistros porque o número de pessoas lúcidas com um forte sentido da dignidade é demasiado baixo.

Mas a História tem mostrado que, sempre que um povo se sente colonizado por outro, o primeiro acaba quase sempre por se libertar do segundo. Isto dá-nos alguma esperança.

“War is never a solution; it is an aggravation.” (Benjamin Disraeli)

Os homens são constantemente confrontados com problemas que não sabem resolver. Mas fazem sempre tentativas para resolvê-los e algumas destas tentativas são erros que criam novos problemas, o que resulta de uma inteligência insuficiente para compreender e ordenar o mundo. As discussões infindáveis entre políticos é uma prova dessa insuficiência, porque o governo das sociedades deveria ser feito por métodos científicos e não por opiniões.

A realidade humana é absolutamente absurda e abjecta, o que é inequivocamente confirmado pelas notícias que recebemos todos os dias. A hipocrisia campeia por todo o mundo e a vergonha quase desapareceu. No entanto, as características dessa realidade não são determinadas pelos seres humanos, porque a abjecção atinge graus inimagináveis (ver o post 2024-10). O número e a gravidade das atrocidades cometidas são tais que se foi gerando um sentimento generalizado de que a degradação da Humanidade é irreversível. Todo o homem sensível tem de abominar a maior parte da realidade humana.

Reafirmo que a nossa espécie perdeu o direito de existir. Mas para pôr fim à Humanidade já não são necessárias as armas nucleares. O aquecimento global irá bastar.

“Em 2023, as emissões poluentes causadas pela aviação comercial na União Europeia aumentaram 10% em relação a 2022. […] Se calhar, os estupidamente ricos acreditam que do apocalipse só emergirão eles e as baratas e, provavelmente, já terão equipas de cientistas a estudar a forma de pôr as baratas a render.” (António Rodrigues, in Público de 02-08-2024, p. 17) O actual sistema económico está baseado em tecnologias poluentes e, por isso, não existem condições para resolver o problema do aquecimento global.

Pôr uma pistola nas mãos de uma criança conduz ao desastre, tal como pôr a tecnologia nas mãos dos homens.

“Escrever poesia depois de Auschwitz é uma barbaridade.” (Theodor Adorno)

Melhor será dizer que, depois de Auschwitz e de muitas outras atrocidades, a Beleza e o Amor parecem inúteis, porque já não é possível acreditar que estes sentimentos possam salvar a Humanidade.

E agora a reeleição de Trump poderá ser mais um prego para o caixão da Humanidade. Basta notar que Trump não acredita nas alterações climáticas. Ele é um boçal ignorante que deve ter lido poucos livros até ao fim.

Para Trump, a política é um “reality show”. Como um bom populista, ele fala para os seus apoiantes através de slogans que nunca justifica logicamente: “tornarei a América de novo grande”, “resolverei as presentes guerras em 24 horas”, “Kamala Harris é a vice-presidente mais esquerdista e incompetente que a América já teve”, “Joe Biden é o presidente mais incompetente de sempre”, “Joe Biden está a destruir a América”, “Kamala Harris destrói tudo aquilo em que toca”, “a eleição de Kamala conduzirá a uma nova guerra mundial”, “Kamala é uma comunista”, “Kamala não tem imagem para ser presidente”, “Kamala tem um riso de louca”, etc.

Trump costuma receber qualquer adversário com insultos. Se ele for reeleito poderemos concluir que a maioria dos americanos é tão boçal e inculta como ele. Trump afirmou o seguinte: “I could shoot somebody and not lose voters”. Ao afirmar isto, Trump tratou os seus apoiantes como mentecaptos. E eles são de facto mentecaptos porque não se ofenderam. Nestas condições não pode haver democracia, porque a democracia exige cidadãos cultos e lúcidos.

Trump está convencido de que oes seus apoiantes nunca duvidam do que ele diz e por isso não se coíbe de estar constantemente a mentir. Os psiquiatras devem considerá-lo um caso clínico muito interessante.

“Ninguém consegue atrair multidões como eu. Ninguém. Nem de perto. Sou o maior de todos os tempos. Talvez até maior do que Elvis, porque Elvis tinha uma guitarra. Eu não tenho uma guitarra. Elvis tinha uma guitarra. Eu não tenho o privilégio de ter uma guitarra.” (Donald Trump, num comício mostrado na Sic Notícias em 19-09-2024)

Sob o título “Trump é o perfeito negativo do retrato dos valores democráticos. Age como um rei ou imperador”, o Diário de Notícias de 28-08-2023 publicou uma entrevista a Onésimo Teotónio Almeida (disponível na Internet) onde ele caracteriza bem o narcisismo patológico de Trump.

É difícil perceber que uma pessoa sensata possa aceitar ser vice-presidente de Trump.

Trump vai ficar na história da América como o presidente mais boçal e inculto. Um documentário sobre a vida política de Trump ganhará certamente o óscar do grotesco.

No livro “Falar piano e tocar francês” (p. 160), Martim Sousa Tavares afirma o seguinte: “O entusiasmo é […] contagiante, mas o desânimo também o é. Infelizmente, uma das características do pessimismo é ser uma tendência galopante de que se alimentam, por exemplo, a hipocondria, a paranóia ou o populísmo político. Aliás, segundo o manual do populismo, onde se determina o velho e mais do que sabido método de acção que tem sido usado pelos principais oportunistas e demagogos dos últimos duzentos anos, o truque consiste em inventar uma doença e de seguida vender a cura. Instaurar e alimentar um clima generalizado de desagrado para, ao mesmo tempo, oferecer a única escapatória para esse desagrado. Nunca se viu um populista fazer elogios ao estado das coisas: é sempre indignação, vergonha, basta isto e chega daquilo. Porém – e este é o segundo mandamento do manual –, o populista apresenta-se como um verdadeiro patriota.”

Mas estando a Humanidade a caminhar aceleradamente para a extinção, estes meus desabafos têm pouca importância.

O aquecimento global está a aumentar a entropia da matéria e portanto também a dos cérebros. Talvez por isso o mundo está cada vez mais incompreensível.

Todos os dias somos confrontados com situações aberrantes e insuportáveis. A salvação da Humanidade exigiria mudanças de tal magnitude que não é possível acreditar que venham a ocorrer.

“We already have – thanks to technology, development, skills, the efficiency of our work – enough resources to satisfy all human needs. But we don't have enough resources, and we are unlikely ever to have, to satisfy human greed.” (Zygmunt Bauman)

“The greatest economic minds of the 19th century, all of them without exception, considered economic growth as a temporary necessity. When all human needs are satisfied, then we will have a stable economy, reproducing every year the same things. We will stop straining ourselves worrying about development or growth. How naïve they were! One more reason to be reluctant about predicting the future. No doubt they were wiser than me, but even they made such a mistake!” (Zygmunt Bauman)

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A existência de Deus, 2025-25

No artigo “CIBERCULTURA – Experimentar Deus-Existência”, de Miguel Oliveira Panão (disponível da Internet), o autor afirma: “Deus não existe no sentido comum. Se Deus existisse, seria como qualquer outra realidade que existe. As reservas que tenho em conjugar as palavras “Deus existe” advêm de serem uma conjugação muito limitada para a Realidade-que-tudo-determina. O que me parece fazer mais sentido é afirmar que “Deus é Existência” (além de Deus é Amor, como nas Cartas de S. João). Porém, faz algum sentido perguntar se “a Existência existe?” Não creio. Sabemos pouco de Deus, mas se acolhermos esta possibilidade de contemplar Deus como a Existência que dá sentido a tudo, relacionamos corretamente “Existência” e “Deus”. A existência de Deus não faz sentido porque Deus é a existência. Se Deus é Existência, não faz sentido provar a sua existência, mas sim experimentar essa Existência.” Uma vez que Deus pertence ao domínio do inconcebível, nenhuma metáfora pode aumentar o nosso conheciment...

Schopenhauer e Kastrup, 2025-47

De acordo com o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), o homem é livre para fazer o que deseja — a não ser que algo o impeça (liberdade de acção), mas não para escolher os seus desejos (ausência de liberdade da vontade). Para este filósofo, a “Vontade” (com ‘V’ maiúsculo) é a força fundamental e cega que impulsiona tudo no Universo, incluindo os nossos desejos e até mesmo a nossa vontade de mudar. Assim, estes desejos não são escolhidos livremente; eles são impostos por uma “Vontade” cega, independente de nós e largamente irracional, que nos torna escravos da nossa própria natureza. Não temos controlo sobre essa Vontade, que é a origem dos nossos desejos, impulsos ou vontades; estes surgem de forma autónoma, ditados pela nossa essência, que é imposta por essa Vontade. Em resumo: somos autómatos dirigidos por desejos que não escolhemos, uma ideia central na filosofia de Schopenhauer, que explora a natureza da vontade e da liberdade na sua obra “O Mundo como Vontade e Representação”. ...

Futuro sombrio, 2025-49

A história da Humanidade é em grande medida um relato de conflitos e horrores. Se as acções humanas fossem escolhas racionais, o homem já há muito teria tido consciência do absurdo que a História descreve. Mas os homens são apenas actores numa peça escrita por uma mão invisível, a que Schopenhauer chama Vontade e Bernardo Kastrup chama Consciência Universal (vide post 2025-47). Os homens estão constantemente a praticar actos irracionais, dominados por uma sensibilidade defeituosa. A Consciência Universal é a Realidade Total. A ciência só permite o conhecimento da matéria, que é a parte objectivável dessa Realidade. Segundo Bernardo Kastrup, a matéria é a representação dos seres inanimados nas consciências individuais. Estas consciências estão fora do âmbito da ciência, o que torna a realidade humana inexplicável. Daí a necessidade dos mitos para dar sentido à vida humana. Nenhum poeta sabe por que é poeta, e nenhum sociopata sabe por que é sociopata. Trump não é Trump porque quer, mas ...