Na entrevista publicada no Ípsilon de 28-06-2024, a propósito do seu livro “Canção do profeta”, Paul Lynch afirma:
[Este livro] “é um lamento pelo que somos, sempre, por aquilo que não podemos mudar. Os padrões essenciais que ficaram enraizados ao longo da História e que continuam a repetir-se e a repetir-se e a repetir-se. E que não mudam. Isso é sofrimento. Este livro é um lamento de dor.” E logo a seguir afirma: “Acho que todos os meus livros são lamentos. Toda a minha ficção é uma visão trágica do mundo. O sentido da nossa impermanência no Universo, o significado do momento. Interessa-me o momento, em chegar ao sentido do agora. E, no entanto, tudo está a passar. Tudo é perda. Todos os meus livros são sobre isso. E, ao mesmo tempo, de uma forma ou de outra, narrativas de provação. Se há alguma coisa que me interessa é isso. […] Toda a minha ficção faz perguntas. Questões metafísicas sobre a condição humana, sobre o que somos, o que há em nós, quanto está dentro de nós, até onde vamos.
E mais adiante: “Os maiores escritores [...] trabalham a partir do desconhecido. Escrevem sobre o nosso desconhecimento, sem procurarem respostas, sem procurarem certezas, sem procurarem conhecimento. […] A grande arte deve levar-nos ao lugar do silêncio, que é aquele em que vivemos.”
Segundo Paul Lynch, há momentos em que um homem se sente sozinho no Universo. “É ele e Deus, ou o cosmos, ou o que quer que seja… E é nesse contexto que ele se confronta consigo mesmo e se torna um indivíduo, e responde a questões fundamentais para ser uma pessoa no mundo. […] Há problemas que existem fora da sociedade e que não podem ser respondidos pela sociedade. Mas todos nós achamos que a sociedade pensa tudo e que tudo lhe pertence, e que toda a nossa raiva e toda a nossa fúria podem ser resolvidas dentro da sociedade. Há coisas que não podem ser resolvidas nesse espaço. [Como por exemplo] os problemas de significado, da metafísica, os problemas de tentar dar sentido à escala do que somos, e não apenas sob uma lente sociológica ou política ou qualquer outra.”
“A Natureza é objectiva mas também é um espelho. É as duas coisas ao mesmo tempo. A Natureza é sempre um espelho porque vemos o que sentimos. Projectamo-nos no mundo e vemos de acordo com o que sentimos em relação ao mundo.”
“Ficaria muito surpreendido se não houvesse um colapso de pelo menos um Estado ocidental na próxima década ou duas. Mas não escrevo romances de prognóstico. Uma das ideias é tentar reflectir sobre o que temos, e que milagre é a civilização, que é apenas um verniz fino tão fácil de perder e tão facilmente quebrável. Tomámos como garantidas as últimas décadas desde a II Guerra Mundial, e estamos agora a transpor o fim da memória viva. Todos os nossos avós já morreram, a memória viva desapareceu e isso é uma limitação. Esquecemo-nos e depois reencenamos as coisas que esperávamos esquecer.” Isto é, estamos na posição de voltar a cometer erros que pensámos estarem definitivamente afastados.
“Não invento personagens. Elas estão lá e eu só ouço.E escrevo e ouço e escrevo e ouço. Para mim, é mais uma questão de ouvir do que de criar. Escrever é um acto profundamente intuitivo, por isso, o que acontece entre a caneta e a página é misterioso.” (Paul Lynch, Ibidem)
Não podemos dizer que o homem goste realmente de viver. A previsão da morte, não só a dos indivíduos mas também a da própria Humanidade, não permite ter esse gosto.
A realidade está em permanente mudança e não parece que essa mudança aponte para algum objectivo, porque ela é fortemente aleatória. A grande variabilidade dos corpos humanos favorece a sobrevivência da espécie, mas a enorme diversidade das mentes dificulta a construção de sociedades harmoniosas. Parece portanto que as leis naturais favorecem mais a guerra do que a paz e que, por isso, a vida humana é inútil.
As nossas narrativas são sempre a propósito do passado e do presente. “O futuro a Deus pertence”. Quando pensamos no futuro só podemos ficar em silêncio. Não podemos apresentar uma finalidade para a vida humana. Nem vale a pena procurá-la porque a Humanidade vai acabar por desaparecer, talvez mais cedo do que muitos pensam.
Dado que a Humanidade é uma parte de um Universo de natureza aleatória e caótica, a incoerência da realidade humana é perfeitamente compreensível. Ela nunca se tornará uma realidade harmoniosa e bela, e os conflitos, mais ou menos intensos, existirão sempre.
Um ser vivo está sempre em luta contra o ambiente (que inclui todos os outros seres vivos), embora seja suportada por ele. Aquele que deixa de lutar morre.
“O que não me mata torna-me mais forte.” (Friedrich Nietzsche)
Tendo em conta as características da vida, podemos concluir que ela não é compatível com um ser verdadeiramente humano. Deste modo, a epopeia humana não poderá acabar bem. Uma inteligência superior não poderia ter a intenção de criar um tipo como o Trump e outros ainda piores.
Comentários
Enviar um comentário