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O ruído da História, 2024-57

 

Normalmente diz-se que o progresso económico é indispensável. Com maior que menor esforço, o PIB lá vai aumentando. Mas ao mesmo tempo, muita gente sente que os países mais ricos estão regredindo em termos de formação moral, cívica e cultural dos seus cidadãos. Isto é assim porque, para a maioria, a vida não tem objectivos importantes e por isso as pessoas crescem a imitar levianamente os outros.

“O drama do homem moderno é que pode estar perfeitamente integrado e ser um elemento válido para a sociedade e, ao mesmo tempo, sentir-se totalmente desprovido de valor.” (Bruno Vieira Amaral, in Ípsilon de 22-11-2024, p. 10) Os seres e os acontecimentos só têm o valor que conseguirmos dar-lhes.

As sociedades não aprendem nada com o passado e os erros voltam a ser cometidos passado algum tempo. Os homens não são livres porque a sua fraca inteligência é incompatível com a liberdade. Na verdade, os homens pouco mais podem fazer do que assistir ao espectáculo caótico e angustiante que o mundo lhes oferece.

Temos neste momento duas guerras que seriam impensáveis no fim do séc. XX. E além disso as sociedades ocidentais são campos de guerrilha política constante.

Há pouco tempo, no programa 5.ª Coluna da TVI, Miguel Sousa Tavares afirmou que em Portugal nada funciona: educação, saúde, segurança, economia, etc.

Eu tenho a sensação de que a Humanidade está a agonizar. Muitos falam contra o capitalismo mas não apresentam ideias claras de como melhorá-lo.

Tenho notado que há cada vez mais literatura tratando da crise climática. O fim da Humanidade vai ficar bem documentado mas essa literatura não terá destinatários.

Os homens transformaram a Terra numa lixeira, no solo, no mar e na atmosfera. A tecnologia está a virar a sociedade de pernas para o ar e os homens não vão conseguir controlá-la.

No artigo “A ‘tecnologia’ é também uma palavra…” (Público, 03-09-2021), o Prof. A. Betâmio de Almeida (do IST) refere o dilema de David Collingridge (1981): "Os efeitos sociais de uma tecnologia não podem ser previstos no início. Quando são identificados, já fazem parte do sistema social e económico e o controlo torna-se difícil. Ou seja, nas novas tecnologias ‘sobrestimamos os efeitos positivos a curto prazo e subestimamos os efeitos a longo prazo’ (lei de Roy Amara, 2006), o que dificulta a designada ‘inovação responsável’. Nalguns casos, a ética e a regulação conseguiram um controlo, noutros casos há efeitos do passado que são, no presente, crises reveladas: as alterações climáticas e os efeitos das tecnologias do petróleo, dos plásticos e dos carros nas cidades.”

“A realidade é muito abusadora.” (Mário de Carvalho)

Mário de Carvalho explicou porquê no festival Escritaria, em Penafiel, em Outubro de 2013: “Porque teima em não nos fazer as vontades. E porque foge muitas vezes às nossas expectativas e à nossa vontade de domínio sobre ela”.

“Quanto mais velho fico, mais certeza tenho de que não estou comandando o show.” (Leonard Cohen)

Quanto mais velho sou, menos certezas tenho e mais decepções acumulei. Mas com insensatos como Trump, parece passar-se o contrário.

Em 24-11-2024, no programa “O Princípio da Incerteza” da CNN Portugal, o Dr. José Pacheco Pereira, falando sobre a celebração do 25 de Novembro de 1975, afirmou o seguinte:

“Quem trabalha com História sabe que há um conjunto de acontecimentos que não são possíveis de racionalizar inteiramente. Há o Sr. A que não gosta do Sr. B, há o Sr. A que é corajoso e o outro é covarde, há acasos ou um furo num pneu. Em História, a ideia de que os acontecimentos passados, mesmo aqueles que ocorreram há 49 anos, podem ser racionalizados, com rigor, é um erro. O mundo tem ruído e esse ruído não pode ser racionalizado”.

O mundo não pode ser racionalizado porque o imprevisível não é racionalizável.

O ruído da História é uma manifestação do ruído do mundo, que justifica a irracionalidade dos seres humanos. E esta irracionalidade explica os horrores inimagináveis que ocorrem constantemente neste planeta e os discursos fascizantes que ouvimos quase todos os dias.

 

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