Avançar para o conteúdo principal

Os contornos da verdade, 2026-2

O desconhecimento da verdade absoluta não é importante porque, para sobreviver, o homem não precisa de conhecer toda a verdade. De resto, é quase certo que as linguagens humanas não podem exprimir a verdade absoluta. O homem inventou a linguagem para comunicar os seus desejos. E a vida humana não pode ter outro objectivo senão satisfazer a sensibilidade, porque não conseguimos imaginar nenhum outro propósito desejável e possível.

“O sentido da vida é simplesmente estar vivo. É tão claro, tão óbvio, tão simples. E, no entanto, todos correm em pânico como se fosse necessário alcançar algo para além de si próprios.” (Alan Watts)

Mas devemos procurar viver da maneira mais racional possível. Tentar concretizar todos os sonhos pode causar muito sofrimento, como a desumanidade do regime iraniano prova cabalmente. Este regime é uma das realidades mais execráveis que podemos imaginar. Ele prova que a religião pode ser a causa de muito sofrimento.

Os seres humanos não vivem num mundo de ideias mas no mundo que gerou a Vida, no qual tudo é incerto, precário e transitório. O homem é um acidente da Vida e nada permite esperar que ele possa ter um destino admirável.

O objectivo da vida de uma pessoa deverá ser partilhar cada momento com a maior gentileza possível, porque ninguém sabe quanto tempo irá viver na Terra, e a própria Humanidade não é eterna. A resposta de cada pessoa às circunstâncias do momento depende da sua sensibilidade, porque sem a sensibilidade nenhuma acção é justificável. Como Mahatma Gandhi afirmou, “a arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”. Ora, qualquer obra de arte é a razão de si mesma.

“I have realized that the past and future are real illusions, that they exist in the present, which is what there is and all there is.” (Alan Watts)

No seguinte vídeo do Youtube, Richard Feynman explica que o Universo é uma “dança” de átomos na qual os seres humanos participam.
Death Is Not The End — Feynman Explains What Physics Says About Dying
Essa dança produziu génios como Camões, Shakespeare, Carl Sagan, Einstein, o próprio Feynman e muitos outros. Temos tido o prazer de admirar estes génios, mas também a amargura de suportar as bestas que andam e andaram por aí.
No vídeo anterior, Feynman dá só o ponto de vista da física sobre o homem. Mas este não pode ser só a dança dos átomos, porque a física não abarca a estética nem a ética. O homem é uma dança de átomos com o Espírito Universal.

“A única forma de ter sucesso real na ciência, o campo com o qual estou familiarizado, é descrever as evidências com muito cuidado, sem ter em conta a forma como se pensa que devem ser. Se se tem uma teoria, deve-se tentar explicar igualmente o que tem de bom e o que tem de mau. Na ciência, aprende-se um tipo de integridade e honestidade padrão.” (Richard Feynman)

Do artigo de Kristina Leonardi intitulado “We’re All Just Walking Each Other Home”
(disponível na Internet) tirei o seguinte:
“We’re all just walking each other home.” (Ram Dass)
“Como seres humanos, simplesmente não poderíamos existir sem outros seres humanos. […] Você consegue ver-se através dos olhos de outra pessoa; algo nela desperta certas partes de si; a sua interação com ela desencadeia ou ativa algo que precisa de ser curado ou expresso num ou em ambos; é uma oportunidade para praticar a dar e receber amor. E estão a cocriar experiências e memórias que se entrelaçam para formar essa coisa chamada a sua VIDA.
Tudo isto o traz de volta a casa, a si mesmo, e com uma consciência mais profunda, em última análise, à parte de si que está ligada à força vital que é maior do que você mesmo, seja ela chamada Natureza, Fonte, Deus, Poder Superior, Universo, etc.
[...] Amigo, companheiro, cliente, filho, pai, namorado(a), dentista, chefe, estranho... todos nós cruzamos caminhos nesta vida por uma razão. Todos nos apoiamos e orientamos mutuamente, quer tenhamos consciência disso ou não.
Outro motivo pelo qual este tema tem estado nos meus pensamentos ultimamente é a realidade de que nós, ou os nossos entes queridos, podemos estar aqui hoje e partir amanhã. Conheço três pessoas que perderam alguém próximo recentemente, de forma repentina e sem aviso prévio. Nunca sabemos quando daremos o nosso último suspiro, quando acontecerá a nossa última interação. É tão fácil esquecer, mas devemos valorizar e viver cada momento como se pudesse ser o último, e aproveitar ao máximo o tempo que temos juntos.”

“A mitologia não é uma mentira, a mitologia é poesia, é metafórica. Já se disse que a mitologia é a verdade penúltima — penúltima porque a verdade última não pode ser expressa por palavras. Está para além das palavras. Para além das imagens, para além dos limites da Roda do Devir budista. A mitologia projeta a mente para além desses limites, para aquilo que pode ser conhecido, mas não dito.” (Joseph Campbell)

“Há algumas pessoas pouco inteligentes e/ou mal-educadas que se queixam, com aparente sinceridade, de que a investigação científica destrói as maravilhas e a magia da natureza. Podemos imaginar a reacção indignada de poetas como Tennyson ou Shelley a este absurdo, e é certamente melhor conhecer a verdade do que se deixar levar por ilusões, por mais encantadoras que sejam. Quase invariavelmente, a verdade revela-se muito mais estranha e maravilhosa do que a fantasia mais extravagante. O grande J. B. S. Haldane expressou-o muito bem quando disse: ‘O universo não é apenas mais estranho do que imaginamos — é mais estranho do que podemos imaginar.’” (Richard Feynman, in “O Prazer da Descoberta”)


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A existência de Deus, 2025-25

No artigo “CIBERCULTURA – Experimentar Deus-Existência”, de Miguel Oliveira Panão (disponível da Internet), o autor afirma: “Deus não existe no sentido comum. Se Deus existisse, seria como qualquer outra realidade que existe. As reservas que tenho em conjugar as palavras “Deus existe” advêm de serem uma conjugação muito limitada para a Realidade-que-tudo-determina. O que me parece fazer mais sentido é afirmar que “Deus é Existência” (além de Deus é Amor, como nas Cartas de S. João). Porém, faz algum sentido perguntar se “a Existência existe?” Não creio. Sabemos pouco de Deus, mas se acolhermos esta possibilidade de contemplar Deus como a Existência que dá sentido a tudo, relacionamos corretamente “Existência” e “Deus”. A existência de Deus não faz sentido porque Deus é a existência. Se Deus é Existência, não faz sentido provar a sua existência, mas sim experimentar essa Existência.” Uma vez que Deus pertence ao domínio do inconcebível, nenhuma metáfora pode aumentar o nosso conheciment...

Inevitável e imprevisível, 2025-38

Segundo Bernardo Kastrup, todos os seres vivos são segmentos dissociados da Consciência Universal, na qual todos os acontecimentos são pensamentos (vide 2025-36). Assim podemos considerar a Consciência Universal como um grande ser vivo que inclui todos os outros seres vivos. Segundo Kastrup, a Consciência Universal é a Causa Primeira, ou causa incausada. Só a Consciência Universal é verdadeiramente livre. Nenhuma consciência dissociada poderia ter escolhido de maneira diferente da que escolheu, e o que aconteceu num dado lugar e instante não poderia ter acontecido diferentemente. Cada consciência dissociada limita-se a assistir ao espectáculo inevitável, imprevisível e sem plano que a Consciência Universal lhe oferece. No blog “A Vida Intelectual” de Edward Wolff, no post intitulado “Introdução ao Idealismo Analítico”, pode ler-se: “O facto de nós homens sermos dotados de metacognição, ou seja, o facto de nós sermos capazes de pensar sobre o pensamento, de sermos capazes de autoconsciê...

Amor, beleza e verdade, 2024-32

“Todas as horas deveriam ser consagradas ao amor.” (Virginia Woolf, citada em “Falar Piano e Tocar Francês”, p. 41) Neste livro, Martim Sousa Tavares escreve também que “todas as horas deveriam ser para a beleza” (Ibidem, p. 41), o que não contradiz Virginia Woolf porque o amor é a forma mais intensa de beleza. Segundo Platão, a beleza é o reflexo da imortalidade, porque ao criar uma obra de beleza vencemos a morte. Tal era o sonho filosófico de Platão, o sumo-sacerdote da Religião da Beleza (ver “Platão – Biografia, filosofia, obras e frases”, in Netmundi.org). Em minha opinião, a ética é a estética das relações humanas. Os sem-abrigo tiram beleza à sociedade. A grandeza de uma pessoa está apenas na beleza das relações que ela estabelece com as outras pessoas. “Ethics and aesthetics are one.” (Ludwig Wittgenstein) Segundo aquele maestro, a beleza “é um nutriente espiritual de valor não inferior às necessidades do corpo” (Ibidem, p. 43). Um pouco adiante (p. 44) ele acres...